Os poderes do alho são incontestáveis. Além de ajudar a mandar embora aquela gripe renitente, atua contra problemas cardíacos, circulatórios, respiratórios e é capaz de prevenir até alguns tipos de câncer.(Rose Mercatelli)

Ele é considerado energizante, regenerativo, antigripal, preventivo de problemas cardíacos e circulatórios, um antibiótico natural, além de excelente coadjuvante no tratamento de outros tantos males que afligem a humanidade desde sempre. Pesquisas recentes revelam até que o alho estimula bom humor. E há quem garanta, inclusive, que é afrodisíaco. Pelo menos é isso que relata o poeta grego Homero. Em seu poema épico, Odisséia, Ulisses usa o alho para fazer Circe se apaixonar por ele, livrando-se assim de uma feiticeira. Mas, como nada nem ninguém é perfeito, mesmo os mais ardorosos fãs do alho apontam um senão: o odor marcante que "escapa" pelos poros ou pelo hálito dos mais aficionados - talvez o que, de fato, afaste os vampiros... Por esta e pelas outras características já deu para notar que, fácil, fácil, podemos dividir as pessoas em duas categorias: as que amam o alho e as que querem distância dele.

Contradições à parte, está claro que nenhum produto consegue atravessar séculos com fama de milagroso se não tivesse ótimas qualidades. Erva bulbosa, da família das Liláceas, originária da Asia e dos países mediterrâneos, conhecida pelos cientistas como "Allium sativum L", o alho tem o prestígio em alta desde os tempos dos faraós, há mais de 4 mil anos.
Os escravos egípcios que construíram a pirâmide que serviu de tumba ao faraó Tutankamon alimentavam-se com enormes quantidades de alho para garantir as de cólera.

E os gregos recomendavam chá de alho para tornar a voz mais límpida e afastar gripes, resfriados, tosses, bronquites e asma. Tudo isso com o aval do Dr. Hipócrates (460-377 a.C.) que, em seus compêndios de medicina, já citava o uso de vapores de alho no tratamento de tumores.

A fama atravessou mares e milênios, acabou conquistando o mundo ocidental e ganhou espaço na ciência. Pesquisadores como o microbiologista e químico francês Louis Pasteur (1822-1895) descobriram no alho sua ação bactericida.

Na primeira Guerra Mundial, inclusive, quando outros anti-sépticos falhavam, os médicos usavam uma pasta de alho para tratar de ferimentos infectados. Na mesma época, o médico-missionário alemão Albert Schweitzer, em seu hospital na África Equatorial Francesa (atual Gabão), tratava pacientes portadores de ameba com os prodigiosos bulbos aromáticos.


O Poder da Alicina
Depois de inúmeras análises químicas, os cientistas chegaram à conclusão de que a grande riqueza do alho se encontra nos seus componentes - mais de trinta já foram isolados -, especialmente nos derivados de enxofre (sulfatados). Entre eles, o mais importante é, sem dúvida, a alicina (di-propenyl tiosulfinato), responsável pela maioria das propriedades farmacológicas da planta. Na verdade, a alicina, um líquido de coloração amarelada, só aparece de fato quando o alho é mastigado ou cortado, rompendo-se as células do bulbo. E é também a alicina a responsável pelo forte odor característico da planta.

Experiências comprovam que a alicina é um antimicrobiano poderoso. Atua, por exemplo, na morte de bactérias gram-negativas, causadoras de infecções e furunculoses. Funciona também como agente antiviral, combatendo, entre outros o vírus da gripe. Na China, estão estudando há mais ou menos três anos o efeito do extrato injetável do dialil sulfeto, outro dos componentes do alho, contra o citomegalovírus e alguns outros tipos do vírus causadores do herpes, muitas vezes presentes em transplantados, devido à queda do sistema imunológico. Embora a ciência não saiba precisar com exatidão como funcionam os compostos sulfurados, os pesquisadores acreditam que eles atuem diretamente no núcleo dos vírus, impedindo sua proliferação. Dessa mesma maneira, a alicina agiria contra bactérias e fungos como a "Candida albicans", responsável pela candidíase ou sapinho.

Outros estudos, porém, apontam nos derivados do enxofre um efeito diferente, mas igualmente benéfico: o fortalecimento do sistema imunológico, com o aumento do número de linfócitos T, uma das mais combativas células de defesa do sangue. Dessa forma, a proliferação dos microorganismos também ficaria prejudicada.

Como se não bastasse, depois de assimilado pelo aparelho digestivo, o óleo de alho torna-se volátil e é conduzido pelo sangue aos pulmões. Nessa região, as substâncias sulfatadas, em especial a alicina, destroem os microrganismos e ajudam a desobstruir as vias aéreas superiores enquanto fluidificam as secreções pulmonares, auxiliando na expectoração. Entendeu agora o porque do poder do popular chá de alho contra gripes e resfriados?

Parentes Medicinais
Além da alicina, outros componentes do alho já provaram suas propriedades farmacológicas. Para que essas propriedades se manifestem, basta consumir dois ou três dentes por dia, ou seja, nada além do que você usa habitualmente para temperar suas refeições diárias. Veja quais são:

DIALIL DISSULFETO: presente em 60% do óleo do alho, é uma das mais importantes substâncias da planta e foi descoberta em 1892 pelo cientista alemão P.W. Semmler. Tem a capacidade de reduzir a "captação" dos lipídios pelas células do tecido que reveste a parte interna dos vasos. Dessa forma, diminui a formação de ateromas, placas endurecidas formadas principalmente por gorduras, que obstruem os vasos sanguíneos. Previnem-se assim os problemas cardíacos e circulatórios, provocados pelo excesso de colesterol.

Outra virtude também atribuída ao dialil dissulfeto é a de ser um agente antitumoral. Em pesquisas realizadas no Centro do Câncer da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, a substância mostrou capacidade de reduzir em até 75% - e em alguns casos chegou a impedir - a formação de câncer de cólon (intestino grosso) em ratos de laboratório que receberam doses extras de produtos considerados cancerígenos. Da mesma forma, pesquisas realizadas em duas cidades chinesas próximas indicaram que em uma delas, onde o hábito de comer alho era rotineiro, a incidência de câncer do aparelho digestivo (esôfago, estômago e intestinos) era dez vezes menor do que em sua vizinha, na qual o consumo desse alimento era muito pequeno.

POLISSULFETO DE ALILA (di e trissulfeto): Trabalhando em dobradinha com o dialil dissulfeto no combate aos males do coração, esta substância aumenta a elasticidade dos vasos sanguíneos e relaxa as fibras musculares, provocando vasodilatação. Por isso, o alho é indicado para prevenir a hipertensão, além de ajudar a combater a arteriosclerose (o endurecimento das artérias).

TRISSULFETO DE METIL ALILA: inibe uma enzima que atua na agregação das plaquetas do sangue, uma das principais causas da trombose, a obstrução dos vasos sanguíneos. Em conjunto, trabalha também o ajoeno, substância presente no óleo essencial do alho, que funciona como anticoagulante.


Minerais Preciosos
Mas os tesouros do alho não se limitam aos compostos sulfurados. Contém inda dois minerais preciosos, o germânio e o selênio, que, embora entrem m quantidades ínfimas na dieta alimentar, são indispensáveis à boa saúde. O selênio funciona como um excelente antioxidante, ligando-se aos radicais livres, partículas desgarradas de oxigênio que transitam por todas as partes do corpo, "enferrujando" as células e envelhecendo precocemente os tecidos. O germânio, além de agir contra os radicais livres, atua como um condutor de oxigênio, rejuvenescendo e revitalizando as células. Ao longo do tempo, o organismo perde parte da capacidade de obter e levar as quantidades adequadas de oxigênio a todas as células do corpo. Aí entra o germânio. Apesar de todas essas qualidades, o alho deve ser consumido em quantidades moderadas. Por comer componentes sulfurados, pode irritar o estômago dos mais sensíveis e propensos a gastrites e úlceras. Também as pessoas alérgicas ao cheiro - são raros, mas existem - devem evita-lo, já que o uso costuma causar mal-estar, dor de cabeça, enjôo e ânsia de vômito. Às crianças muito pequenas e às mamães que amamentam, os médicos também recomendam que consumam alho cozido e, mesmo assim, em quantidades pequenas.


Valor Nutricional
Em 100g de alho cru (três cabeças) você encontra:

  Vitamina B1          224 mcg
  Vitamina B2           74 mcg
  Vitamina B5         0,29 mcg
  Vitamina C            14 mg
  Calorias             134 cal
  Glicídeos           29,3 g
  Proteínas            5,3 g
  Fósforo              134 mg
  Ferro               1,04 mg

Análise de Composição dos Alimentos, de Guilherme Franco, 1982.


Alho de Bolso
Quem está interessado nos benefícios que o alho pode trazer à saúde, pode também lançar mão das cápsulas de óleo extraído do alho. Têm a vantagem de conservar todas as propriedades do alho "in natura", eliminando o odor do hálito. Mas, atenção: o cheiro na transpiração permanece, até porque, depois de dissolvido no intestino, o óleo é absorvido e cai na corrente sanguínea, irrigando todo o corpo, sem esquecer de nenhum poro, por menor que seja. Apesar de não apresentar contra-indicações, nada de exageros. A dose máxima recomendada por dia é de 1 grama (1000 mg). O peso de cada cápsula varia de acordo com o fabricante. Mas, em geral, elas são encontradas em doses de 250 mg a 1000 mg.


Consultoria:
Maria Teresa Destro, Professora do Departamento de Alimentos e Nutrição Experimental, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, da USP;
Elfriede Marianne Bacchi, professora da Faculdade de Ciências Farmacêuticas, da USP;
Yoshie Takano, pediatra e homeopata, de São Paulo;
Milene Gonçalves Massaro Raimundo, nutricionista do Departamento de Nutrição da Coordenadoria de Abastecimento da Secretaria da Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo.