Drª. Denise Polato de Lima © 2003

O país acompanha perplexo as notícias sobre falsificação de medicamentos. A população começa a ser alertada dos riscos a que está exposta diariamente. Óbitos já começam a ser registrados. Fatos recentes? Não! Notícias recentes. Infelizmente, trata-se de problema antigo, onde as medidas cabíveis não foram tomadas a tempo.

Ao fazermos uma análise mais profunda, verificamos que não há um único culpado, o falsificador. O Governo, através do Ministério da Saúde, tem parcela de culpa, pois não cria uma estrutura eficaz de fiscalização, nem preventiva nem punitiva. Alega ter o registro de 55 mil estabelecimentos farmacêuticos no país e um quadro de pouco mais de 1.000 fiscais. Fiscais, muitas vezes despreparados, por não receberem treinamento ostensivo, de forma a atuarem no âmbito técnico e legal.

Não há regulamentação quanto à publicidade para medicamentos. São anunciados em ofertas, como se fossem bananas, numa ação que leva ao consumo desenfreado dos mais diversos tipos de produtos. Não há rigor e nem acompanhamento das drogarias existentes. Temos lei que regulamenta a presença do farmacêutico em período integral, mas quantos estabelecimentos seguem a legislação à risca? Poucos, muito poucos.

Temos ainda laboratórios, distribuidoras, fabricantes de matérias-primas, formando uma cadeia, que não sabemos bem onde começa ou termina. Passamos um momento delicado, que poderá fazer renascer os "Fiscais do Sarney", agora "Fiscais dos medicamentos falsificados", que poderão trazer pânico e mais confusão. Mas como farmacêutica, acredito que há um lado positivo. A hora de separarmos o joio do trigo.

É necessária a punição imediata e de total rigor aos culpados. O Governo parece ter percebido a gravidade da situação e começa a se movimentar. Mas a população pode, enquanto consumidora, contribuir. Porque tantas falsificações? Porque o Brasil é um mercado consumidor enorme, altamente lucrativo, e sua população desinformada no tocante à saúde. O que pode ser feito?

Uma parcela da população já optou pelo medicamento manipulado, aviado em farmácias (drogarias se destinam exclusivamente à comercialização de medicamentos, enquanto farmácias trabalham com medicamento aviado, mediante receituário médico). As farmácias, em sua grande maioria, são de farmacêuticos, que se mantêm a frente do negócio, supervisionando atendimento e manipulação.

Sua clientela é menor, possibilitando atendimento personalisado e a relação farmácia-cliente que esclarece dúvidas e orienta sobre cuidados com o produto. Isto sem falar no contato médico-farmácia, onde as partes assumem sua função, em trabalho conjunto, cujo objetivo é a saúde do paciente/cliente.

Nenhum farmacêutico, proprietário de farmácia, cometerá, em sã consciência, um ato criminoso, falsificando um medicamento deliberadamente. Adquira medicamentos em estabelecimento consolidado, com farmacêutico a frente do negócio. Converse com o médico, informe-se com sobre quais resultados esperar do tratamento. Estabeleça prazos para observações e prefira medicamento personalizado, exclusivo.

Acredito que assim poderemos elevar em muito a qualidade de vida da população. A seleção quanto aos estabelecimentos será natural: teremos que nos aperfeiçoar tanto tecnicamente, quanto no âmbito administrativo. Boas práticas de fabricação, garantia de qualidade, treinamento de funcionários, certificações de qualidade, enfim, todos os recursos disponíveis para que se possa oferecer e garantir o verdadeiro medicamento.