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Projeto do Espaço Cultural Rudolf Steiner segue os preceitos da arquitetura antroposófica.
Concha geométrica à luz das linhas e cores antroposóficas
Por Juliana Mariz, De São Paulo

Foto: Carla Romero/Valor
A fachada tem uma escultura-mural criada também por Gian Algarotti

A sede do Espaço Cultural Rudolf Steiner, que também abriga os escritórios da Sociedade Antroposófica no Brasil, mudou a paisagem de uma tranqüila rua no Alto da Boa Vista, em São Paulo. A criação do projeto, assinado pelo arquiteto Paulo Brazil, seguiu premissas básicas da arquitetura antroposófica, doutrina baseada nos ensinamentos do filósofo austríaco Rudolf Steiner.

A paisagem de seguidos sobrados é interceptada pela fachada orgânica do prédio em terracota e concreto. O projeto paisagistico do imóvel presenteou a população local com uma pequena praça com palmeiras. "Uma das requisições era que a sede fosse convidativa e também tivesse a introspecção necessária a estudos e pesquisas", conta o diretor da Sociedade, Dietrich Wilhelm Hagemann. "A sede quebra a racionalidade da rua. Até pensamos em colocar um gradil, mas tem de ser aberto mesmo para que se possa conviver com o cidadão", completa o arquiteto Paulo Brazil, que ficou impressionado com a boa reação das pessoas quando o tapume foi removido, há pouco mais de um ano.

A geometria dos traços arquitetônicos é apontada como um dos itens mais interessantes. São várias as possibilidades de desenhos formados pelos ângulos, que não são retos, o que, segundo a arquitetura antroposófica, promove maior fluidez ao espaço. As janelas, por exemplo, não são simplesmente retangulares. "Podemos pensar no Espaço Cultural como uma concha. As linhas não morrem, têm uma seqüência. É o côncavo e o convexo. O que abriga e o que convida", acrescenta Paulo Brazil.

Segundo o arquiteto, a farmácia antroposófica Weleda, ao lado da sede, que passou por reformas para ter unidade estética com o Espaço Cultural, se encaixa no topo do imóvel vizinho. "Podemos dizer que é o negativo do espaço cultural", diz Brazil.

Foto: Carla Romero/Valor
Ângulos não-retos dão fluidez ao espaço e fazem parceria com as janelas

Outro ponto, digamos, negativo ligado à elogiada construção foi a ginástica espacial pela qual o arquiteto teve de passar. O pequeno terreno (dois lotes de 10 por 37,5 cm) exigiu que a obra crescesse verticalmente. São três andares: o térreo com o auditório, um "foyer" com café e mais um andar onde estão os escritórios, um terraço, uma sala para eventos e a biblioteca.

Estes espaços foram recheados com parcimônia. A madeira é o principal material: está na escada, no mobiliário, nas estantes, nas portas. Esta escolha responde a uma das premissas básicas da arquitetura antroposófica: o imóvel deve respirar. Justifica-se também, portanto, o grande número de janelas que garantem a iluminação natural. "De acordo como o sol 'anda' os ambientes vão se modificando", diz Brazil.

A terracota utilizada na obra foi retirada do próprio terreno. Com ela, o artista plástico canadense Gian Algarotti fez uma escultura-mural na fachada. Ele também foi responsável pelo entalhe de madeira feito no palco do auditório, pelas luminárias e pela porta também de madeira que ficam na sala para eventos. Esta porta surpreende: uma única peça forma porta e maçaneta, sem nenhuma emenda.

A mesma sala de eventos abriga outro exemplo da arquitetura antroposófica: a escolha cuidadosa das cores. "Nesta sala usamos as cores do arco-íris um pouco modificadas, mais claras", diz Hagemann. Tal zelo tem uma única razão: gerar bem-estar e acolher melhor o visitante, aquele mesmo que passa pela rua e se impressiona com a obra.

Valor Econômico 6 de Março de 2002
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