Venda de drogas expõe o submundo da internet
Nos shoppings virtuais do crime,
compra-se do entorpecente pronto a fórmulas para produzi-lo
ROBSON PEREIRA e JOÃO MAGALHÃES
A internet e o seu mundo virtual sem fronteiras se transformou no
paraíso perfeito para a criminalidade. Passada a primeira etapa de
encantamento e até de um certo romantismo com as facilidades e a
democratização da informação, o lado obscuro da web cresce em ritmo
alarmante e a cada dia desperta mais a atenção da polícia e de governos.
Uma das áreas que mais prosperam no cyberespaço é o tráfico de drogas.
Compra-se de tudo nos shopping centers virtuais do crime instalados na
internet, desde a droga pronta para consumo imediato até fórmulas para a
produção de novos (e perigosos) compostos a partir de substâncias vendidas
livremente em farmácias ou supermercados.
"Comprei e chegou direitinho", atesta o delegado Mauro Marcelo de Lima
e Silva, ex-chefe do Setor de Crimes pela Internet, da Polícia Civil de
São Paulo. A título de teste, ele encomendou em um site holandês pastilhas
de maconha. O pacote chegou às suas mãos uma semana depois.
Um relatório divulgado recentemente pela Comissão Internacional de
Controle de Narcóticos, com sede em Viena, chama a atenção para o
"crescimento geométrico" do número de páginas especializadas na venda de
drogas ilícitas em alguns países, mas toleradas em vários outros. Entre os
principais "centros atacadistas" de venda de drogas pela internet o
relatório destaca sites da República Checa, Holanda e Tailândia, com
conexões estabelecidas a partir de cybercafés.
Os responsáveis pelo relatório pedem urgência na elaboração de
legislações nacionais adequadas contra crimes que envolvam tecnologia,
para que determinados países não se transformem em santuários para
traficantes. O documento ressalta que a maioria dessas empresas opera a
partir de países onde não estão submetidas a exigências legais rígidas. E
por isso sugere a adoção de normas jurídicas comuns, até mesmo no sentido
de unir esforços entre empresas que atuam no campo da internet e os
correios.
Ecstasy líquido - Proibido em vários países, entre os quais
Estados Unidos, Canadá e Austrália, o Ghb (gamma hydroxy butyrate), uma
poderosa droga conhecida como "o ecstasy líquido", está disponível 24
horas por dia a qualquer pessoa que tenha acesso à internet e nenhum apego
à própria vida. O serviço, que sob o ponto de vista legal está enquadrado
como tráfico de drogas pela legislação americana, opera em um site
estrategicamente localizado nas Ilhas Maurício.
O site expõe as "vantagens" do Ghb em vários idiomas, inclusive o
português, com a bandeira brasileira ocupando destaque na página, logo
abaixo das imagens dos principais cartões de crédito. A entrega do produto
leva em média cinco dias e os preços variam entre US$ 25 (frasco com 25g)
e US$ 1.025 (embalagens com o equivalente a um quilo da droga - quantidade
suficiente para provocar crises de overdose em 200 pessoas).
Em alguns países, como a Espanha, onde também está proibida, a
substância já representa a segunda maior incidência hospitalar por
overdoses, perdendo apenas para a cocaína. Nos Estados Unidos, amigos e
parentes de vítimas da droga criaram uma Organização Não-Governamental
(www.projectghb.org) para prevenir contra o uso da substância.
No site da organização existe a chamada Lista da Morte do GHB, na qual
estão relatados 233 casos de vítimas fatais, todas diretamente
relacionadas com o Ghb. A substância atua no sistema nervoso central e
entre os seus efeitos colaterais são citadas parada respiratória, amnésia,
hipnose e distúrbios cardíacos, causando um quadro que pode levar o
consumidor ao coma profundo.
Em associação com o álcool, é fatal.
Cenários ideais - As salas de bate-papo e os grupos de
discussões são os cenários ideais para as operações ilícitas, mas
freqüentar esses ambientes exige experiência. Normalmente a abordagem é
feita de forma indireta, como a do internauta que queria apenas dicas
sobre lugares "interessantes" para navegar em Amsterdã, na Holanda.
Recebeu numerosas sugestões, disfarçadas sob a forma de inocentes
roteiros turísticos, incluindo um número de telefone de um serviço de
"informações não convencionais" e o endereço de um site holandês que
funciona como um autêntica "drogaria".
Na segunda-feira, pouco depois das 20 horas, um participante do
NewsGroup:alt.drugs.lsd, com e-mail fornecido por um grande provedor de
acesso à internet localizado no Brasil, decidiu ir direto ao assunto ao
postar uma mensagem em inglês: "Estou muito interessado em comprar uma
grande quantidade de LSD. Alguém tem um bom contato? Estou no Brasil. Por
favor, respondam para o meu e-mail..."
A "audácia" do brasileiro foi prontamente repreendida pelos demais
participantes da lista. "Você não sabe que a DEA (agência americana que
atua no combate ao tráfico de drogas) monitora estas salas de
discussões?", alertou um deles.
Pouco depois, um "aprendiz de químico" informava ter encontrado "um
site legal" com uma receita para sintetizar o LSD, mas se queixava da
"grana" que teria de gastar com os equipamentos. "Alguém aí conhece um
jeito mais fácil?", indagou. "Tome umas boas cervejas e procure na web,
homem", foi a resposta.
Para dois jovens australianos, o resultado da busca foi desastroso. Os
dois rapazes, de 18 anos e 20 anos, resolveram experimentar a receita de
uma droga sintética, semelhante ao ecstasy, obtida na internet. O mais
novo morreu, vítima de overdose, na semana passada. O outro foi
hospitalizado, mas conseguiu sobreviver. A receita foi obtida no mesmo
site que vendia os componentes, entre os quais a 5-Methoxytryptamine,
facilmente encontrada na internet.
Urina pura - Melhor sorte pode ter tido um usuário do
Newsgroups rec.drugs.cannabis que pretendia apenas saber quantos dias uma
determinada droga permanecia no corpo. Como justificativa à pergunta,
informava que precisava fazer alguns exames como candidato a um novo
emprego e não queria correr riscos. Recebeu como sugestão um endereço na
internet, o www.ureasample.com, que atua em uma área curiosa: a venda de
urina 100% isenta de quaisquer tipos de drogas.
As vendas são realizadas por meio de cartões de créditos, em dois kits
básicos. O primeiro, em torno de US$ 16 dólares, dá direito a uma boa
quantidade de urina (o comprador tem de assinalar o sexo e o tipo
sanguíneo) e um termômetro para garantir que o produto terá a mesma
temperatura do corpo na hora do teste.
O segundo kit é mais sofisticado e inclui uma espécie de bomba com
válvula de vazão rápida, uma almofada capaz de manter a temperatura da
urina estável por até oito horas e uma cinta que se acopla ao órgão
genital, para aqueles que devem recolher o material à vista do médico ou
funcionário da empresa.
"Basta abrir o zíper", orientam os administradores do serviço. "É como
se você estivesse urinando de verdade."
Custa US$ 40 em média e pode ser guardada no freezer por até oito
meses. As entregas são feitas no máximo em cinco dias, "em embalagens
discretas, sem indicação do conteúdo". Na fatura do cartão de crédito,
aparecerá apenas a inscrição "Paypall", obviamente para apagar rastros e
impedir problemas futuros. Na parte inferior da página, os responsáveis
pelo serviço declaram que não são responsáveis "pelo uso ilícito" do
produto.
Segurança também é o apelo de um outro site, http://eztest.com, muito
conhecido pelos viciados em drogas, especialmente o ecstasy. O serviço
explica com detalhes a composição química da droga e as diferenças entre
as várias formulações encontradas no mercado. Tudo com um único objetivo:
vender kits que permitam ao consumidor de ecstasy testar a pureza do
produto, evitando, assim, "riscos desnecessários que podem levá-lo à
morte".
Os administradores do site garantem que o serviço não é ilegal.
"Nossos produtos não contêm substâncias ilegais ou controladas",
justificam. O site garante que nos últimos quatro anos realizou vendas
para mais de cem países "sem problema algum". A página na internet coloca
à disposição do usuário, "para dúvidas ou consultas", um tal de dr.
Shulgin.
Perigo tailandês - A quantidade de estrangeiros interessados
nos aspectos culturais da Tailândia é surpreendente, a julgar pelo número
de participantes das chamadas listas de discussões sobre o país, como, por
exemplo, o Newsgroups:soc.culture.thai, uma das mais concorridas na
internet. Mas as dúvidas logo se desfazem. Nas mensagens trocadas o tema é
quase sempre o mesmo: o Ya Ba, a droga, em forma de minúsculas pílulas,
que está sendo apontada como a mais nova mania entre os adolescentes
americanos.
O Centro de Controle de Drogas e Álcool dos EUA diz que o Ya Ba, uma
combinação de anfetaminas, efedrina e methamphetamine (em sua maior
parte), produzida em larga escala na Tailândia, está ocupando rapidamente
o lugar da heroína e já ameaça o mercado de ecstasy, com o agravante de
ser uma droga "muito mais perigosa".
Na semana passada, dez pessoas foram presas em Sacramento com quase um
milhão de pílulas coloridas de Ya Ba. Foi a primeira grande apreensão da
droga nos Estados Unidos pelo FBI. Os agentes federais chegaram à
quadrilha depois do rastreamento de um pacote enviado pelos correios,
encomendado pela internet.
Na Tailândia, o Ya Ba é usado por trabalhadores de baixo poder
aquisitivo que precisam estar ativos por várias horas seguidas - como os
motoristas de táxi. Na capital tailandesa, a caixa com dez pílulas custa o
equivalente a US$ 1,25. Nos Estados Unidos, chega a custar US$ 25. De
acordo com relatórios oficiais da ONU, mais de 4 milhões de tailandeses
são consumidores habituais da droga. Cerca de 800 milhões de pílulas
teriam sido fabricadas no país no ano passado.
Apelo sexual - No ano passado, a polícia de Woodland Park, no
Colorado, conseguiu tirar de circulação o site Xavier Erbs, que entupia
caixas de e-mails de todo o mundo com uma oferta absolutamente exótica: o
Kathmandu Temple Kiff - uma mistura de ervas orientais que produz o mesmo
efeito que o da maconha. O kit custa US$ 65, dá direito a um cachimbinho
grátis e promete momentos de euforia, felicidade e êxtase sexual.
"Bastam duas ou três puxadinhas e...", diz o texto do spam, que
circula ainda hoje, embora o site não exista mais. O Xavier Erbs mudou de
terreno e ampliou o número de ofertas. Além do KTK, hoje oferece também
tabletes de Prozac, ecstasy e mais uma dezena de psicodélicos e
afrodisíacos sintetizados no newsgoup bionet.glycosci, entre outros. Com
uma isca: "É tudo inofensivo." Que ninguém acredite nisso.
O mesmo apelo tentador está estampado nos sites Legal Marijuana e
Herbal Alternatives. David Stevens, webmaster do Legal Marijuana, louva a
qualidade de seus produtos. "Nossa maconha é boa, não possui substâncias
proibidas. O barato varia de pessoa para pessoa. E não se preocupe: nossa
entrega é discreta", assegura.
Há ainda o Herbal Hash Shop. O site procura seduzir os incautos com
combinações de plantas medicinais, como a Honey Blond, que traz em sua
fórmula a Cannabinaceae humulus e proporciona sensações parecidas com as
do haxixe. Já o Herbal Alternatives apregoa que, se não é possível achar
uma droga original, se deve procurar pela melhor alternativa - e recomenda
seus cigarros de ecstasy, "que não causam dependência".
Em uma página pessoal, hospedada em um grande provedor de acesso à
internet na Espanha, alguém que se denomina um "animal anarquista" se
diverte em "dicas preciosas" sobre como fabricar drogas sem sair de casa.
Entre os ingredientes citados por ele, aparecem noz moscada, bananas,
alfaces e até teias de aranha. Uma página inteira é reservada pelo "animal
anarquista" para uma receita de "um milhão de doses de LSD", a partir de
12 garrafas de cerveja. (Agência Estado)
O Estado de S.Paulo 1° de setembro de 2002
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