Novas drogas invadem colégios particulares
Produtos com venda liberada viram entorpecentes nas mãos de jovens da capital
ADRIANA CARRANCA
Diferentemente de lança-perfume, maconha ou cocaína, as drogas do
momento não estão nas mãos dos traficantes. Elas podem - e são - compradas
em qualquer esquina. B-25, inalante de buzina ou isqueiro, Special K e chá
de chumbo e de "fita" fazem parte de uma lista de novos produtos que estão
sendo livremente usados por adolescentes da capital. São substâncias
químicas vendidas licitamente e utilizadas pela indústria ou presentes em
remédios para animais, pilhas, fitas cassete ou de vídeo, isqueiros e até
em brinquedos.
Altamente tóxicas, elas se tornam drogas perigosas nas mãos dos
jovens.
Algumas são inaladas ou ingeridas em sua composição original. Outras,
fabricadas de forma caseira.
Como estão "camufladas" em diversos produtos, os entorpecentes passam
despercebidos até da polícia e já chegaram nas escolas, principalmente nas
particulares, aterrorizando pais e professores.
"Usamos na sala de aula mesmo. A gente derrama o líquido na manga da
blusa e os professores não percebem. Nossos pais nem sonham. A sensação é
igual à do lança-perfume, você fica tonto e meio aéreo. Só que o efeito é
pior, parece que toma a cabeça", diz Marcos (o nome, como outros citados,
é fictício, para preservar a identidade dos adolescentes), de 16 anos,
estudante do 3.º ano do ensino médio, que na quinta-feira comprava com
dois colegas 240 mililitros de cola para acrílico (conhecida como B-25),
em uma loja na Rua Augusta. Os três vestiam o uniforme de um dos colégios
mais tradicionais da cidade, perto da Avenida Paulista.
"A gente cheira para desbaratear da aula. É só farra, mas eu já me
senti mal e, uma vez, perdi os sentidos", diz Rodrigo, de 19 anos, colega
de Marcos, responsável pela compra da substância, vendida a maiores de 18
anos.
Segundo os garotos, pelo menos duas meninas já desmaiaram sob o efeito
da droga, que é dividida entre os alunos. "Toda hora uma passa mal e a
gente tem de socorrer", diz Marcelo, de 16 anos. "Elas são burras, não
sabem usar o bagulho e ficam loucas."
Riscos - "As novas drogas preocupam porque não se sabe qual o
seu limite e, portanto, o risco de overdose é alto", diz o psiquiatra
Cláudio Jerônimo da Silva, coordenador do programa Einstein de Tratamento
de Dependência de Álcool e Drogas e professor do curso de especialização
em dependência química, da Escola Paulista de Medicina.
Há um mês, um aluno do 3.º ano do ensino médio de uma escola no
Itaim-Bibi, na zona sul, desmaiou em sala de aula, depois de inalar B-25.
Outros cinco confessaram usar a droga com freqüência, um deles foi expulso
por estar passando o entorpecente para os outros garotos.
Em uma escola da Vila Olímpia, pelo menos quatro alunos passaram mal,
há cerca de duas semanas, e tiveram de ser atendidos no Centro de
Assistência Toxicológica do Instituto da Criança e Hospital das Clínicas
(Ceatox).
"Percebemos nos últimos três anos um grande aumento no uso de drogas
nas escolas. Mas o que está acontecendo agora assusta porque são
substâncias lícitas, que os adolescentes compram e usam sem ter noção dos
riscos que correm", afirma o médico Anthony Wong, diretor do Ceatox.
"Estamos recebendo consultas de pais e professores sobre o que fazer em
casos de intoxicação por inalação de gás propanobutano, do B-25 ou mesmo
da ketamina praticamente todos os dias. E nós só estamos vendo a ponta do
iceberg. Isso porque, em geral, as famílias e as escolas só procuram o
médico quando percebem que não podem resolver o problema sozinhos. A droga
ainda é um tabu."
De acordo com o psiquiatra Silva, do Einstein, os inalantes e as
substâncias tidas como lícitas são, atualmente, a grande preocupação da
comunidade acadêmica. "Elas começam a ser usadas para só depois serem
pesquisadas, tamanha a velocidade que surgem no mercado e rapidamente
conquistam os adolescentes", afirma Silva. "Eles criam uma relação
positiva com essas drogas, por serem lícitas. Os jovens as colocam na
mesma categoria do álcool, muitas vezes aceito pelos pais, e acham que
tudo bem usá-las. Nós, médicos, ficamos com a sensação de estarmos atrás
do prejuízo."
O Estado de S. Paulo 23 de abril de 2002
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