Jovens não têm dificuldade de comprar drogas
Especialistas e a polícia se surpreendem com a facilidade de adquirir os produtos
ADRIANA CARRANCA
A facilidade com que os garotos adquirem as substâncias usadas como
entorpecentes impressiona especialistas e a própria polícia. O gás butano,
altamente tóxico, é encontrado em isqueiros e cornetas vendidas em bancas
e lojas de brinquedos. Até de artigos aparentemente inofensivos - como
fitas cassete e de vídeo, pilhas e radiografias - os jovens conseguem
retirar drogas perigosas.
No caso do B-25, o líquido é vendido em um tubo de plástico branco,
sem rótulo. A embalagem de 120 mililitros custa apenas R$ 6,00. "Só
vendemos para maiores de 18 anos", diz a gerente administrativa de uma
loja de materiais plásticos, que não quis se identificar. "Suspeitamos que
eles usam como entorpecente, mas não podemos fazer nada fora daqui."
Em outubro, a loja foi investigada pelo Grupo de Apoio e Proteção à
Escola (Gape), ligado ao Departamento de Investigações sobre Narcóticos
(Denarc), da Polícia Civil. "Apreendemos dez frascos do líquido. O laudo
técnico, porém, só apontou a presença de diclorometano, substância
liberada", diz o titular do Gape, Eduardo Narde. "Não há nada o que fazer
nesse caso."
Na ficha técnica do produto, obtida pelo Estado, no entanto, consta
que cloreto de metileno está incluído na lista da Anvisa entre os "insumos
químicos utilizados como precursores para fabricação e síntese de
entorpecentes e/ou psicotrópicos". Sob a mesma classificação foram
colocadas substâncias reconhecidamente usadas como drogas, como o éter
etílico, presente no lança-perfume, e o tolueno, encontrado na cola de
sapateiro.
O chamado Special K - droga ainda mais forte, que pode causar
dependência e levar à morte - é vendido em lojas de produtos para
veterinários e só poderia ser comprado com receita médica. A norma, porém,
não é sempre respeitada. Na semana passada, a reportagem do Estado esteve
em uma loja no centro e adquiriu um frasco de 10 ml da marca Dopalen, sem
apresentar receita ou documento. "Isso só é vendido com prescrição médica,
mas abrimos exceções", disse um funcionário da loja.
"A facilidade de acesso é um fator determinante para o vício", diz o
psiquiatra Cláudio Jerônimo da Silva, do Einstein. "O perfil desses
garotos que usam as chamadas drogas lícitas é muito diferente daquele que
busca maconha na boca-de-fumo. Eles têm medo e só usam essas drogas porque
estão ali, fáceis e, mais importante, liberadas. O perigo é que quanto
mais expostos a essas substâncias entorpecentes, mais riscos eles correm
de se tornarem verdadeiros dependentes químicos." (Adriana Carranca)
O Estado de S. Paulo 23 de abril de 2002
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