Falta de ‘sintomas’ assusta pais e deixa os professores perdidos
Escolas não têm como controlar o que os alunos fazem depois que saem da aula
ADRIANA CARRANCA
Buzina da alegria a gás: fácil acesso

Os adolescentes que usam as chamadas drogas lícitas fogem do estereótipo que se tem do drogado. Ao contrário do que se imagina, eles não têm o rosto abatido ou apresentam olheiras, como a personagem Mel, da novela O Clone, da Globo. Normalmente, esses jovens são os mesmos que comem cereais matinais saudáveis, antes de ir para a escola, e praticam esportes à tarde. E é exatamente essa característica que assusta os pais, deixa professores perdidos e preocupa os especialistas.

“Os adolescentes conseguiram um jeito de se drogar de uma forma que os distancia daquele menor de rua da Praça da Sé ou do estereótipo do drogado. Mas estão correndo os mesmo riscos”, diz o psiquiatra Cláudio Jerônimo da Silva, do Hospital Albert Einstein.

“Só nos últimos dois meses, atendi quatro casos de jovens, entre 12 e 14 anos, que inalaram B-25. Um deles desmaiou após derramar o líquido embaixo da língua. No carnaval, socorri seis menores que haviam cheirado gás butano. Em um dos casos, um rapaz de 22 anos entrou em coma, depois de usar a droga junto com álcool”, diz o psiquiatra Gilberto Henrique Fleury, especialista em dependência química. “O mais alarmante é o fato de que todos eram adolescentes de famílias estruturadas de classe média-alta e que praticavam esportes.”

Os professores estão despreparados. “Já tive duas solicitações de escolas particulares que não sabiam como lidar com estas novas drogas. Os inalantes eram tidos como coisa de meninos de rua até o ano passado, mas os casos mais recentes mostram que eles não fazem mais distinção de classe social”, diz a educadora Helena Maria Becker Albertani. “Estamos lidando com o problema de forma deficitária. Ainda não temos medidas que nos tranqüilizem.”

“É preciso fazer um alerta à sociedade sobre essas drogas, que estouraram nos primeiros meses deste ano”, diz Silvia Gouveia, do Conselho Nacional de Educação e diretora da Escola Lourenço Castanho, que tem 1.800 alunos, da educação infantil ao ensino médio. A escola, discute as drogas com alunos já a partir da 5.ª série, mantém um psicólogo para conversar com os estudantes e deverá abrir em breve um canal de comunicação via Internet com a família.

“A benevolência dos pais com as drogas lícitas como o álcool ou os energéticos, que também alteram seu comportamento, abre as portas para outros entorpecentes. Eles têm medo de dizer não aos filhos.”

Rigidez – Diante dos novos desafios, o controle e até certa rigidez na educação já passam a ser defendidos por especialistas. “Os adolescentes precisam ser monitorados tanto quanto uma criança que coloca o dedo na tomada”, diz Silva, do Einstein. “Eles ainda não conseguem avaliar o perigo. Por isso, os pais precisam estar atentos. Informar, apenas, não resolve. Pai é pai, não é amigo, e precisa impor limites. É isso que os filhos esperam dele.”

A teoria é confirmada em casos como o de Camila, de 15 anos. “Experimentei cigarro aos 5. Comecei a fumar para valer aos 11, inclusive maconha, depois passei a beber. Meu pai sabe de tudo. Ele também fuma maconha”, diz a adolescente. “O fumo e o álcool me levaram a outras drogas, como B-25, ecstasy e cocaína. Só que isso ele não sabe”.

Na Escola Nossa Senhora das Graças, o assunto tem sido discutido entre alunos, pais e professores. “O mais difícil foi admitir que o problema existe. A partir daí, contratamos uma assessoria psicopedagógica. O segundo passo foi reunir os pais e abrir o jogo. Hoje, nos antecipamos ao problema com reuniões sobre as drogas”, afirma o diretor da escola, Eduardo Roberto da Silva.

“Se os adolescentes percebem que têm espaço para falar, eles conversam”, afirma a professora de filosofia do Albert Sabin, Helena Millanezi. “Eles têm fascínio pela droga porque é algo desconhecido. Nosso papel não é discutir se é ou não ‘legal’, mas até que ponto o ‘legal’ vale a pena.” (A.C.)



O Estado de S. Paulo 23 de abril de 2002
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