Minha pele

Face a face com a inimiga número um, a espinha
Tatiana Pronin, De São Paulo

Quem sofre do mal sabe bem: espinhas não afetam apenas adolescentes e são um veneno para a auto-estima. Mas uma pesquisa realizada no Reino Unido e publicada no British Journal of Dermatology vai além: os níveis de desemprego são maiores entre pessoas com acne, problema que atinge 20% dos adultos. O estudo contou com 625 pacientes da cidade West Yorkshire, na Inglaterra. Entre os homens com acne, a taxa de desemprego aferida foi de 16,2%, contra 9,2% no grupo sem a doença e, entre as mulheres, o desnível foi de 14,3% para 8,7%.

Em outra pesquisa britânica recente, realizada pelo Acne Support Group, pode estar a resposta para esse quadro. Num universo de 900 pacientes, 50% confessaram sentir-se inseguros para conseguir emprego por causa da pele. "Existe mesmo preconceito, principalmente quando se trata de vaga nas áreas de alimentação ou beleza", considera a dermatologista Denise Steiner, diretora da Clínica Stöckli, em São Paulo. Segundo ela, acne é uma doença de causa fisiológica, que não tem nada a ver com falta de asseio.

A médica explica que há vários tratamentos disponíveis contra a doença. Certos anticoncepcionais e um medicamento usado em doses maiores para câncer de próstata, a flutamida, têm se mostrado eficientes para as mulheres. O remédio mais eficaz para ambos os sexos, no entanto, é a isotretinoína, conhecida comercialmente como Roacutan. A substância diminui o tamanho das glândulas sebáceas, o que, em cerca de cinco meses, combate definitivamente a acne.

A isotretinoína pode causar deformidades no feto, por isso mulheres só podem engravidar um mês depois de interromper o tratamento. Também é comum haver ressecamento da pele e das mucosas e, no primeiro mês, a acne pode até piorar um pouco. "Se soubesse que era tão eficiente, teria pedido para tomar antes", declara a cientista política Mônica Pereira, de 29 anos, que já havia experimentado vários métodos, antes de se livrar da acne com o Roacutan.

A suspeita de que o medicamento cause depressão, contudo, tem gerado polêmica. Embora o fato não tenha sido comprovado, a Roche foi obrigada a incluir o item na bula do produto nos Estados Unidos. O fato ocorreu após um garoto de 15 anos, que usava a droga, jogar um avião contra o prédio do Bank of America, na Flórida. Denise, que trabalha com o remédio há 18 anos, garante que nenhum de seus pacientes ficaram deprimidos por causa do remédio: "Pelo contrário, vencer a acne lhes traz alegria e autoconfiança".

Valor Econômico 6 de Março de 2002
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