Nas farmácias que vendem tudo, perigo à vista
Quase 12 mil drogarias foram denunciadas em 2001; venda sem receita é o caso mais comum
LUCIANA MIRANDA
De balas e chocolates inofensivos a remédios de uso controlado que
podem causar dependência. Há farmácias que vendem de tudo e as
irregularidades proliferam. Só no ano passado, o Conselho Regional de
Farmácia do Estado de São Paulo (CRF-SP) encaminhou 11.769 denúncias sobre
drogarias da capital e do interior à Vigilância Sanitária.
Mesmo assim, o CRF-SP continua detectando irregularidades em sua
fiscalização de rotina. Entre as mais prejudiciais à saúde está a venda de
medicamentos de uso controlado sem receita médica. São calmantes e
inibidores de apetite de tarja preta, que, por lei, só podem ser vendidos
sob prescrição médica. Além disso, o balconista da farmácia tem de reter a
prescrição, feita pelo médico em formulário especial. As farmácias também
têm sido procuradas por adolescentes, muitos de escolas particulares, que
compram calmantes e estimulantes para usar como droga, conforme mostrou
ontem reportagem no Caderno Cidades.
A costureira Cristiane Silva Ferreira, de 24 anos, leva a sério o uso
de remédios. Ela reluta até em comprar antibióticos receitados pelo médico
para seu filho Pablo, de 4 anos. "Não trouxe a receita, mas foi o médico
que receitou", diz Cristiane, referindo-se ao antibiótico que estava
comprando na drogaria.
Já a professora aposentada Yolanda Castro Brandão, de 82 anos,
confessa comprar calmante sem receita médica. Ela aproveita suas viagens
até o interior de Minas para isso. Lá, tem conhecidos que são donos de
farmácia.
"Tomo só um pedacinho do comprimido para dormir", conta, para
justificar a prática arriscada.
O presidente do CRF-SP, Francisco Caravante Júnior, alerta: há
estabelecimentos na periferia da capital e no interior onde a venda dos
remédios de tarja preta é livre. "É onde a fiscalização da Vigilância
Sanitária tem mais dificuldade para chegar." O uso de remédios de tarja
preta sem acompanhamento médico pode levar à dependência. Há casos em que
um mês é suficiente para isso.
Fiscalização - Caravante explica que o CRF-SP faz sua parte -
detecta os problemas. A entidade não tem poder de fechar a farmácia, o que
cabe à Vigilância Sanitária de cada município. "A Vigilância tem de
colocar equipes de fiscais na rua todos os dias, como fazemos no CRF-SP."
No interior, o trabalho da Vigilância Sanitária está municipalizado. A
capital está atrasada nesse processo e, por isso, a fiscalização ainda é
estadual. Segundo Caravante, a Vigilância Sanitária responsável pela
capital não dá conta de todas as irregularidades encontradas pelo CRF-SP.
O diretor do núcleo 5 da Vigilância Sanitária, Paulo Nakano, explica
que denúncias de irregularidades recebidas pelo órgão são triadas. "Damos
prioridade para as que oferecem alto risco à saúde." Nessa lista, está a
venda de remédios de tarja preta sem receita médica. "O consumidor deve
exigir a presença do farmacêutico na farmácia", recomenda Nakano. A falta
do profissional dá margem para os outros problemas detectados pelo CRF-SP.
"Se o farmacêutico está presente, os problemas são menores", completa
Caravante.
Pela lei, as farmácias só podem vender remédios e produtos correlatos
(cosméticos e artigos óticos, por exemplo). "As farmácias estão tentando
se transformar em lojas de conveniência", diz Caravante. "Isso
descaracteriza a função essencial desses estabelecimentos que é a de
prestar assistência à saúde."
O Estado de S. Paulo 24 de abril de 2002
Copyright © 2002 O Estado de S. Paulo. Todos os direitos reservados