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| As evidências podem ser claras, mas certos governos não acreditam que o problema exista em seu país. | |
Os números crescem na mesma velocidade com que o ponteiro avança pela escala da balança do banheiro. Em 1991, 15% dos americanos eram obesos; em 1999, já eram 27%. Os jovens, que contam com a vantagem da pouca idade e da maior disposição para os exercícios físicos, também estão engordando: 10% dos americanos com menos de 17 anos são obesos.
Em outros países do Ocidente, os números das roupas também não param de crescer, já que as atividades físicas estão em declínio e as dietas ganham sempre mais calorias. De modo geral, os indivíduos dos países ricos parecem ter perdido a batalha contra a gordura. Enquanto isso, os países mais pobres conquistaram algumas vitórias na luta contra a desnutrição e a fome. Contudo, de acordo com pesquisa apresentada no encontro anual da American Association for the Advancement of Science (AAAS), realizado em Boston de 14 a 19 de fevereiro, parece que se está saindo da frigideira para cair no fogo. Na opinião de antropólogos, a obesidade poderá tornar-se uma epidemia, espalhada por países ricos e pobres.
As primeiras suspeitas da existência do problema surgiram a partir de estudos feitos com grupos de pessoas do mundo em desenvolvimento que, por um ou outro motivo, tiveram contato com as dietas do mundo desenvolvido. Barry Bogin, da Universidade de Minnesota, em Dearborn, estudou um grupo de maias da Guatemala e o comparou a outro grupo que migrara para a Flórida e a Califórnia há 25 anos. Como era de esperar, após quase três décadas de consumo de comida americana, os filhos das comunidades de imigrantes pesavam, em média, 12 kg mais que seus compatriotas da Guatemala.
O exemplo mais contundente do que se passa no mundo pobre vem das Ilhas do Pacífico, onde se encontram os grupos mais obesos do planeta. O dr. Stanley Ulijaszek, da Universidade de Oxford, estudou minuciosamente uma série de dados colhidos em Rarotonga, a mais desenvolvida das Ilhas Cook. Em 1966, 14% dos homens da ilha eram obesos. Em 1996, essa proporção já era de 52%. Em 1996, Ulijaszek constatou surpreso que 100% dos homens com menos de 30 anos eram obesos. Tudo indica que se trata de uma condição que deverá persistir até o fim de suas vidas.
As dietas e as atividades físicas passam hoje por mudança muito rápida nos países mais pobres. Enquanto no Ocidente a industrialização e a urbanização processaram-se ao longo de séculos, as populações de outras localidades migram hoje do trabalho rural intensivo para o estilo de vida urbano sedentário em questão de décadas. Até recentemente, porém, ninguém imaginava que isso pudesse disseminar a obesidade nos países em desenvolvimento em escala tão elevada - embora alguns deles ainda tenham de lutar contra a fome.
Atualmente, até mesmo os aumentos mais modestos de riqueza nos países em industrialização parecem ser suficientes para conduzir seus habitantes da desnutrição à obesidade. Barry Popkin, da Universidade da Carolina do Norte, em Chapel Hill, compilou diversos estudou sobre países de rendas baixa e média da Ásia, África, Oriente Médio e América Latina. Segundo apurou, o crescimento da epidemia de obesidade no mundo em desenvolvimento pode ter consequências ainda mais sérias do que em outros lugares.
Em países como África do Sul e Egito, as taxas de obesidade já são bastante próximas das do Ocidente. O percentual de indivíduos que se torna obeso todos os anos nos países em desenvolvimento é preocupante. Na Europa Ocidental e nos EUA, 0,5% da população ultrapassa anualmente o peso ideal. Na China, entre 1989 e 1997, a taxa correspondente era de 1%, a exemplo do que ocorria no Brasil entre 1974 e 1996. No México, entre 1988 e 1999, o contingente feminino engrossou as fileiras do sobrepeso a uma taxa de 2,5% ao ano, exatamente como os homens coreanos entre 1995 e 1998.
Esse aumento de peso tem se revelado a um só tempo desigual e veloz. Consequentemente, indivíduos mal alimentados e outros, curvados sob visíveis excessos alimentares, convivem lado a lado. Na Índia, levantamento entre 83 mil mulheres constatou que embora 33% fossem subnutridas, 12% estavam acima do peso ou eram obesas. Essa combinação pode ocorrer dentro de uma mesma casa. Estudo feito com famílias da Indonésia revelou que em 10% delas indivíduos mal alimentados e obesos conviviam sob um mesmo teto. Trata-se de um fenômeno misterioso, mas que talvez possa ser explicado pelo volume diferente de comida que é destinado às pessoas de diferentes idades.
Outro pressuposto antigo sobre a obesidade em países em desenvolvimento precisa ser derrubado. No mundo desenvolvido, a obesidade é doença de gente pobre, que se alimenta de batatas fritas e hambúrgueres, enquanto a classe alta se delicia com tofu e verduras, e corre para as academias de ginástica. Acreditava-se que acontecia o oposto nos países pobres, onde somente as classes mais elevadas poderiam dar-se ao luxo de comer em quantidades tais que as tornassem obesas.
Para o dr. Popkin, porém, a epidemia de obesidade no mundo em desenvolvimento afetará mais os pobres do que os ricos, exatamente pelos mesmo motivos observados nos países desenvolvidos. Uma série de estudos realizados no Brasil mostrou que, nas áreas urbanas, as pessoas de maior renda comem mais frutas e menos açúcar e exercitam-se mais do que os indivíduos das camadas mais pobres. Acontece coisa parecida no México e na República Dominicana.
Esse ganho de peso terá efeitos terríveis sobre os padrões de doenças. O diabetes, as doenças do coração e outras conhecidas como "doenças não transmissíveis resultantes de dietas" aumentarão a lista de enfermidades que ocorrem com maior frequência nos postos de saúde dos países pobres, muitos dos quais ainda se vêem às voltas com doenças como a malária e a tuberculose. O número de novos casos de diabetes em adultos na China e na Índia já é maior do que a quantidade de novas incidências no restante do mundo. Daí para a ocorrência de uma epidemia de doenças cardiovasculares não falta muito.
Não é boa a perspectiva de solução para esses problemas. Em muitos dos países afetados, é preciso lutar contra fatores culturais, como a ênfase na digestão comunitária de refeições fartas ou a utilização do alimento como forma de hospitalidade. Além disso, há uma grande dose de descrença da parte dos gestores de políticas públicas, que não crêem na existência desse tipo de problema em seus países. Acrescente-se a isso a relutância por parte dos governos em destinar recursos para a promoção de dietas saudáveis e de exercícios - uma vez que a fome ainda é uma ameaça muito real - e o que se tem é a receita perfeita da inação. Se algo não for feito rapidamente, adverte Popkin, será impossível recuperar o tempo perdido. No mundo em desenvolvimento, a luta, em matéria de alimentação parece ter aberto uma nova frente, e de tamanho assustador.
The Economist/Valor Econômico 26 de fevereiro de 2002