Comer demais, problema de 1 bilhão de pessoas
Alerta nos países industrializados. Nos EUA, 64,5% dos adultos estão acima do peso
Anthony P. Bolante/Reuters
Jovem americano de Seattle: sem medo de consumir gorduras
DENISE GRADY
The New York Times

NOVA YORK - Quase em toda a parte, no mundo inteiro, tendo a oportunidade, parece que as pessoas vão comer e comer e, depois, comer ainda um pouco mais. A maioria sabe que existe um preço a pagar - todas essas calorias extras precisam ir para algum lugar, mas, apesar disso, elas não podem resistir a mais um pedacinho de torta de morango.

Em todo o mundo, um bilhão de pessoas estão agora acima do peso normal ou são obesos, incluindo 22 milhões de crianças com menos de 5 anos. A obesidade e os males a ela vinculados, incluindo a doença cardíaca e pressão sanguínea alta, entraram na lista dos dez maiores riscos para a saúde, da Organização Mundial de Saúde (OMS).

As taxas de obesidade estão aumentando, tanto nos países em desenvolvimento quanto nas nações industrializadas, e os maiores aumentos ocorreram nos últimos dez anos. Nos Estados Unidos, 64,5% dos adultos e 15% das crianças entre 6 e 19 anos estão com excesso de peso. Fazer regime é uma coisa comum, mas a maioria dos que emagrecem voltam a ganhar peso. Alguns especialistas atribuem a culpa ao tamanho cada vez maior da porção alimentar e à proliferação de alimentos rápidos de alta caloria, que tornam mais fácil consumir o valor calórico de um dia numa única refeição.

Pessoas obesas começaram a tentar uma ação judicial contra o McDonald's, acusando-o de não as ter advertido que o excesso de batatas fritas e de cheeseburgers poderia fazê-las engordar. Neste ano, 60 mil americanos morbidamente obesos, ou seja, com cerca de 50 quilos ou mais acima do peso normal, farão grandes cirurgias para reduzir boa parte do estômago e para encurtar os intestinos, a fim de perder peso. Ações judiciais? Operações drásticas? Por que estas pessoas simplesmente não param de comer tanto?

"As pessoas não podem mais parar de comer, da mesma maneira como não podem parar de fazer sexo ou de ganhar dinheiro", disse Stephen Bloom, pesquisador da obesidade do Hammersmith Hospital , pertencente à escola de medicina do Imperial College, em Londres. "Quando um avião cai e não há comida, você come a carne do vizinho. Aqui temos a ação de um impulso humano básico importante."

Impulso - Em vez de dizer às pessoas para resistirem à tentação de comer tanto - um impulso que muitos acham avassalador -, Bloom e outros pesquisadores estão tentando encontrar meios de aliviar as angústias da fome. "Eu acho que nós deveríamos agir como fazemos para a pressão alta e o alto colesterol", disse Bloom. "Nós lhes damos um comprimido. As pessoas não têm culpa disso. São feitas para serem gordas."

Bloom e outros cientistas esperam decifrar os sinais que viajam entre o sistema digestivo, os reservatórios de gordura do organismo e os centros cerebrais que controlam o ato de comer e o metabolismo, numa região chamada hipotálamo. Os pesquisadores afirmam que então poderá ser possível desenvolver drogas que modifiquem esses sinais para dar algo que os diets estão buscando ansiosamente: a sensação de saciedade. Três drogas para perda de peso, receitadas pelos médicos, já estão no mercado, mas os pesquisadores manifestam a esperança de poder desenvolver drogas mais eficazes com menos efeitos colaterais.

Com certeza, a fome não é a única razão pela qual as pessoas comam. O stress, o enfado e o prazer também entram em jogo; é tremendamente fácil comer e beber consumindo muito mais calorias do que o corpo necessita. A maioria dos cientistas que estudam a obesidade acredita que as pessoas são feitas para engordar, porque nós descendemos de caçadores-coletores, cuja evolução no decorrer de milhões de anos foi moldada por períodos de escassez e de ameaça de inanição por falta de comida. Os que podiam comer muito e construir reservas de gordura tinham uma vantagem quando chegavam as épocas magras. E, dessa forma, sobreviveram e transmitiram a capacidade a seus descendentes. Mas hoje, com alimentos ricos e sempre abundantes, isso é uma desvantagem.

Sobrevivência - O médico Gordon Jensen, diretor do Centro para Nutrição Humana da Universidade Vanderbilt, afirmou: "É provável que nós tenhamos um impulso biológico para comer o que nos serviu muito bem historicamente em termos de sobrevivência. Geneticamente, isso fazia sentido quando a gente não sabia se a próxima refeição seria no dia seguinte ou dali a cinco dias. Mas, quando a próxima refeição é sempre que a gente vai até a geladeira, isso é um problema."

Quando um hormônio, chamado leptina, foi identificado pelos pesquisadores da Universidade Rockefeller em 1994, muitos cientistas pensaram que seria a solução para a obesidade. Camundongos privados de leptina comiam vorazmente e se tornavam gordos; injeções de leptina os faziam parar de comer e os levavam a emagrecer. A descoberta levou a pensar que pessoas gordas poderiam não ter a leptina. Mas não foi assim. Os cientistas descobriram que a maioria das pessoas obesas tinha muita leptina e dar-lhes mais hormônio não produzia muito efeito. Os pesquisadores entenderam que ter menos leptina era mais importante do que ter mais.

O hormônio é feito de células de gordura e, ao que parece, essa é a maneira pela qual o corpo faz o cérebro saber quando os depósitos de gordura estão sendo esvaziados. Se caem os níveis de leptina, o cérebro envia sinais para diminuir o ritmo do metabolismo e aumentar a alimentação. Esse é um dos motivos pelo qual a dieta pode ser difícil.

Um estudo recentemente sugere: mesmo que a administração de leptina às pessoas não contribua para fazê-las perder peso, poderá, entretanto, ajudá-las a manter o peso depois de dietas. O trabalho foi dirigido por Rudolph Leibel, da Universidade de Colúmbia. Sua equipe estudou seis pessoas, três obesas e três normais, que fizeram regime até perder 10% do peso. Seus corpos tentaram reconquistar o peso reduzindo o ritmo de seu metabolismo. "Depois, nós lhes demos injeções de leptina em doses pequenas, apenas o suficiente para restaurar no sangue a quantidade que seria produzida pela gordura perdida", disse Leibel. "Estávamos tentando enganar o cérebro."

O truque funcionou: a leptina acrescentada foi interpretada como um sinal de que a gordura que faltava estava de volta. O metabolismo das pessoas aumentou o seu ritmo.



O Estado de S. Paulo 1° de dezembro de 2002
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