Chatos? Hipocondríacos são sofredores
Eles sempre acham que têm uma doença
grave, pois valorizam demais sensações corriqueiras
ROSA BASTOS
O hipocondríaco é antes de tudo um chato. Isso é o que as pessoas
"normais" pensam. Mas não é verdade. Primeiro, todo mundo tem seu lado
hipocondríaco. Segundo, o verdadeiro hipocondríaco sofre, porque sempre
acha que tem uma doença grave. Se sente dor de cabeça, pensa em aneurisma.
Se tem uma queimação no estômago, está com úlcera. Manchas na pele, só
pode ser vitiligo - não viu o Michael Jackson?
"Não se pode perguntar pra minha mãe se está tudo bem, que ela
responde:
'Mais ou menos.' Conta que doem os pés, a cabeça, as costas e já
começa a falar dos remédios. Ela bate cartão na Santa Casa! Não só vai
como leva minha avó, que tem 81 anos. Se alguém se queixa de uma doença,
ela diagnostica na hora e questiona até o médico. Ela me acorda para ver
se eu estou vivo, acredita?"
Não há dúvida. A mãe de Gabriel, que aos 24 anos vive brigando com
ela, é uma verdadeira hipocondríaca. Carmem, de 52 anos, sabe até quando
seus problemas começaram, só não consegue resolvê-los. "Foi em 92. Perdi o
emprego e a auto-estima." Queixa-se de depressão, hipertensão,
taquicardia.
"Sinto pés e mãos amarradas. Dependo do meu filho para tudo."
Quem tem esse distúrbio emocional, como definem os médicos, valoriza
demais sensações corriqueiras. Mas, por que tanta gente tem um lado
hipocondríaco?
Porque, de certa forma, é um jeito de preservar a saúde. Não se pode
desprezar os sinais do corpo. Hipertensos, obesos e diabéticos que levam a
vida fazendo de conta que não têm nada, por exemplo, podem ir parar no
hospital. "Alguma dose de cuidado com o próprio corpo é essencial para a
sobrevivência", diz o psiquiatra e psicanalista José Atílio Bombana.
Um pouco de cuidado é necessário, mas não o exagero. "Quando essas
características são intensas e a vida começa a se mover em torno disso,
pode-se dizer que a pessoa é hipocondríaca." Carmem define bem os
sintomas:
"Sinto uma série de coisas. Parece que há uma tempestade no meu
organismo."
Para Gabriel, o que a mãe tem são "piripaques". O rótulo também é
usado por médicos que não suportam ver sua autoridade contestada e a
paciência testada.
Estima-se que de 6% a 10% dos que buscam atendimento em
prontos-socorros e ambulatórios não têm doença física, mas psíquica. Ao
psiquiatra poucos vão.
Isso seria aceitar o diagnóstico de hipocondríaco. "Eles têm quase uma
preocupação mórbida com doenças", define o psiquiatra Danilo Antonio
Baltieri, responsável pelo setor de prevenção do Grupo Interdisciplinar de
Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da USP.
Atormentado, o paciente perambula de especialista em especialista,
buscando a confirmação do diagnóstico que ele próprio estabeleceu. "Se o
médico informa que os exames físico e de laboratório nada acusaram, a
reação não é de alívio, mas de desespero, frustração e desconfiança", diz
o psiquiatra Renério Fraguas Júnior, do Hospital das Clínicas. "Fica
indignado porque o médico não achou nada. E acredita que, ao afirmar que a
doença é da cabeça, o médico quis dizer que os sintomas são invenção ou
uma farsa."
Além de se desentender com os médicos, essa turma fica mal com
parentes e amigos e, pior, é alvo de brincadeiras.
Molière - O escritor Luis Fernando Verissimo imaginou que, em
um encontro de "doentes imaginários", como os definiu Molière, alguém
discursaria assim: "Infelizmente, muitos dos que estão aqui hoje não
participarão do congresso no ano que vem... Eu mesmo acordei esta manhã
com umas pontadas do lado e acho que não passo deste mês."
Nem Frei Betto resistiu à tentação de escrever um texto
ridicularizando os hipocondríacos, entre os quais se incluiu. "Quando
viaja, não se hospeda, se interna. No bolso do paletó não carrega caneta,
mas termômetro. O hipocondríaco não tem remédio. Ele só se cura quando
morre e, paradoxalmente, a morte é o sintoma mais óbvio de que ele tinha
razão.
Repare como ele, defunto, traz um sorrisinho de vitória nos lábios."
Ironias à parte, não se pode esquecer que o hipocondríaco sofre, e
muito. "A pessoa reclama de sintomas orgânicos, mas está, na verdade,
pedindo ajuda para um sofrimento psíquico que não encontra outra forma de
se manifestar", diz o psicanalista Rubens Marcelo Volich, autor do livro
Hipocondria - Impasses da Alma, Desafios do Corpo. "Pode ser que ela se
queixe do que não tem motivo porque não consegue manifestar a verdadeira
razão. Por isso, em vez de seguir a pista falsa de uma queixa que não
existe, o médico deveria considerar outra pista, que o paciente não
consegue apontar."
Segundo Volich, aquilo que na definição de hipocondria é dito como
imaginário o paciente vive como realidade. "Mesmo que não se encontre o
quadro clássico da doença, se percebe um quadro depressivo, uma altíssima
ansiedade. Não adianta falar: eu acho que você tem um problema psíquico. O
paciente não suporta isso."
Fraguas concorda com Volich. E conta que 45% dos pacientes de
hipocondria costumam ter depressão. "Uma vez detectada e tratada a
depressão, acaba a hipocondria."
Os psiquiatras condenam a imagem grotesca e estereotipada que se faz
dos hipocondríacos, como se fossem pessoas que sentem prazer em infernizar
a vida dos médicos. "Eles procuram ajuda, mas discordam do médico porque
não se sentem esclarecidos em suas inquietações", diz Bombana.
Mas ninguém pode ignorar o clamor do hipocondríaco. Afinal, ele pode
ter realmente a doença de que se queixa. Ou outra qualquer.
Remédios - O grande perigo para o hipocondríaco, na verdade, é
a automedicação. "Todo e qualquer remédio tem efeitos colaterais e, para
algumas pessoas, eles podem ser catastróficos", diz o clínico-geral do HC
Arnaldo Lichtenstein. Só com indicação médica é que se pode tomar remédio.
Antigamente, a hipocondria era chamada de paranóia das vísceras.
"Paranóica é uma pessoa que se sente perseguida", explica Bombana. "O
hipocondríaco seria perseguido pelo próprio corpo, ou seja, o inimigo está
dentro dele.
Imagine o que é achar que há alguma coisa errada dentro de você o
tempo todo." Segundo Bombana, os médicos precisam ter uma certa tolerância
para lidar com esses pacientes.
De acordo com Lichtenstein, esses pacientes precisam mesmo de
paciência e tempo do médico para conversar. Só que, em vez disso, ele pede
mais exames, o que reforça o problema. "Você não tem nada, mas, já que
insiste, vou pedir uma ressonância", diz o médico. "Se não tenho nada, por
que ele pediu o exame? Então eu tenho e ele não está me falando." Cabe ao
médico cortar esse círculo vicioso.
E hipocondria coletiva, existe?
Se uma pessoa famosa fica doente, é batata. "Quando Paulo Francis teve
uma dor no ombro e morreu de enfarte em Nova York, durante meses muita
gente foi a prontos-socorros achando que ia morrer como o jornalista",
lembra Lichtenstein.
Os médicos experientes vêem até com certa ternura o que acontece com
os estudantes de medicina. "Quando começam a estudar, eles se encaixam em
algumas doenças, o que é muito natural", diz Lichtenstein.
"Se o aluno trata de um paciente com doença reumática - que faz doer
as juntas e acomete o coração -, diante de qualquer dorzinha, sente
palpitação e falta de ar. Sente, mas não tem", explica o cardiologista
Antonio Carlos Lopes, chefe da disciplina de Clínica Médica da Escola
Paulista de Medicina.
Na maioria das vezes, uma boa conversa com o professor ou o médico
mais velho resolve. E, assim, ele vai ficar mais sensível quando, já
doutor, ouvir:
- Dói tudo.
"Ele se comporta como numa loja", diz
farmacêutica
Mariana Alves conta que o
hipocondríaco é reconhecido pela freqüência e atitudes
- Boa tarde, posso ajudar? - pergunta a farmacêutica.
- Não, hoje eu só estou dando uma olhadinha para quando eu precisar! -
responde a cliente da drogaria, na Vila Pompéia. Ela vai lá todos os dias
e passa as prateleiras em revista. Dá um pulinho no mercado e na padaria e
volta para outra sessão de pesquisa. Nem sempre compra.
"Os doentes vêm aqui na esperança de sarar. Já os hipocondríacos vêm
na esperança de ficar doentes para poder usar esse ou aquele remédio", diz
a farmacêutica Mariana Correia de Oliveira Alves, de 26 anos. Ela os
reconhece "pela freqüência e pelas atitudes". "Pedem medicamentos para
várias doenças, querem saber tudo o que há disponível e os efeitos
colaterais."
"Se ele está doente do fígado e há várias opções de remédios, leva um
de cada para testar. Se lê a bula e descobre que pode causar problemas de
estômago, leva remédio para o estômago. Se fala que pode dar enjôo,
também.
Ele se comporta na farmácia como se estivesse vendo vitrine de loja:
'Eu não sabia que já tinha esse.' E percebe até mudanças na embalagem.
'Olha, ficou diferente, vou levar!'" - Minha garganta está coçando. Pode
me indicar um antibiótico? - pede um homem.
- O senhor já tentou chupar uma pastilha ou tomar chá de limão com
mel?
Talvez não precise de antibiótico... - argumenta Mariana.
- Como você sabe, se sou eu que estou sentindo?
Chega uma mulher com uma receita e Mariana vai orientá-la. O
hipocondríaco entra na conversa. "Não tome esse porque vai fazer mal ao
seu estômago.
Aquele é melhor."
(R.B.)
Radialista tem remédios em casa,
trabalho e carro
Admirador de farmácias, Salomão
Esper até ajuda os 'hipocondríacos enrustidos'
Leitor de bulas e admirador confesso de farmácias e salões de
barbeiro, desde que vivia em Santa Rita do Passa-Quatro, interior de São
Paulo, o radialista Salomão Esper, de 72 anos, mantém duas farmacinhas bem
sortidas e organizadas por ordem alfabética: uma em casa e outra no
trabalho. Para onde vai, carrega uma "reserva técnica" - sacola de
remédios, que deixa no carro.
"É para o caso de uma emergência."
Esper não se considera um hipocondríaco. "Quem me atribui essa
condição são os hipocondríacos enrustidos que todo dia batem na minha
porta pedindo um remedinho para afta, dor de cabeça, isso e aquilo",
conta. "Eles chegam, súplices, e eu lhes dou o alívio imediato. Confiam
mais no meu taco do que no médico do ambulatório."
A atração do radialista por farmácias é antiga. Quando era moleque, em
Passa-Quatro, freqüentava a Galeno, que tinha na parede a propaganda de um
remédio para amarelão, com o desenho do Jeca Tatu (lembra?) observando por
uma lupa os bichinhos entrarem pela sola do pé. "Que lugar fascinante!"
A enxaqueca é sua "companheira inseparável", como ele diz,
parafraseando Augusto de Campos. E também uma gastrite. Daí, o estoque de
medicamentos que testa e partilha generosamente. "Eu sou a cobaia." Diz
que está sempre atualizado, vendo as advertências nas bulas e tomando
remédios e receitas caseiras. "Não pratico exercício ilegal da medicina.
Mando procurar o médico. Eles vão. E voltam rindo porque eu sempre acerto
na mosca. Até hoje nunca tive uma queixa, tipo 'você me deu o remédio
errado', nem um caso fatal."
(R.B.)
O Estado de S.Paulo 6 de outubro de 2002
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