Internet muda a relação médico-paciente
Com 83 milhões de páginas na web sobre saúde, as pessoas buscam dados de sua doença
PATRICIA REANEY
Reuters

LONDRES - Uma das primeiras decisões de Alexis Haines, após descobrir que tinha câncer de mama, foi buscar dados sobre sua doença na internet. Em vez de apenas confiar na palavra do médico, da família, dos amigos e dos livros, Alexis e milhões de outros doentes como ela estão se socorrendo do espaço cibernético em busca de informação sobre seus padecimentos.

Quando se usa um mecanismo de busca com a palavra "health" (saúde, em inglês) ou "salud" (em espanhol), o resultado traz cerca de 82 milhões de páginas da web, quase 13 milhões sobre câncer - o mais completo conjunto de fatos e cifras sobre qualquer problema que afete o ser humano. "Foi parte da caixa de ferramentas que usei para lidar com o meu problema", conta Alexis.

Londrina de 49 anos, Alexis rastreou páginas científicas de vários órgãos de saúde e hospitais, buscou sites de auto-ajuda para pacientes com câncer e mergulhou em chats e fóruns sobre o tema. A idéia era aprender o máximo possível, acumular informação sobre tratamentos alternativos, nutrição, atitudes espirituais. "Quando se desenvolve um câncer, o primeiro impulso é querer saber tudo."

Nova era - A época em que os pacientes se sentavam à espera do que dizia o médico - o que fazer, como enfrentar, que providências imediatas tomar - definitivamente terminou. Os doentes hoje têm munição informativa suficiente para participar ativamente dos cuidados com sua saúde. Em média, 32% dos europeus e 53% dos americanos usam a internet, segundo pesquisa da empresa Datamonitor.

O autor do levantamento, David Deon, tem um perfil desse internauta específico: "A maioria obtém informação nos portais, descreve seus sintomas e suas condições e, com base no que recebe como resposta, elege suas páginas preferidas." Deon considera que a internet não só ajuda as pessoas a se informarem como acaba revolucionando a relação médico-paciente. "Existia um desequilíbrio entre a quantidade de informação disponível para os médicos e o que era acessível aos pacientes. A internet mudou essa proporção."

Nick James, especialista em câncer da Universidade de Birmingham e fundador de um site de auto-ajuda para quem sofre da doença, tem vasta experiência nessa nova relação com os pacientes: "É muito mais fácil sustentar uma conversa com alguém que já está informado."

Cerca de 10% dos pacientes acima de 60 anos com câncer que James atende usam a internet atrás de informação básica ou mais sofisticada. Outros 45% pedem a alguém que busque esses dados, como amigos ou parentes e às vezes até ao médico. "Mas a busca mais ansiosa por conhecimento está nas camadas mais jovens", conta.

O portal de James (www.cancerhelp.org.uk) bateu todos os recordes de visitas em agosto: 7,8 milhões de pessoas acessaram suas páginas, das quais cerca de 30% eram dos Estados Unidos.

James chama a atenção para a grande quantidade de espaços medíocres sobre saúde criados na internet e salienta o que pesa na escolha dos pacientes:

credibilidade, precisão e rapidez. "Mas a minha impressão é de que a informação que o paciente leva da internet para o consultório é quase sempre adequada."

A tal ponto Alexis Haines ficou convencida dos benefícios da web que planeja construir uma página na rede, voltada para mulheres que, como ela, têm uma mutação genética que aumenta as possibilidades de desenvolver câncer de mama.



Informações facilitam o diálogo, diz professor de clínica médica
Especialista alerta, porém, para o perigo do autodiagnóstico e da automedicação
MARISA FOLGATO

O professor titular de clínica médica da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Antonio Carlos Lopes, depara cada vez mais em seu consultório, em São Paulo, com pacientes que buscam informações na internet sobre saúde. "Se a pessoa é bem informada o suficiente para buscar os sites bons, sérios, fidedignos, essa visita à internet facilita o diálogo", diz Lopes.

Mas ele alerta para os riscos de recorrer a dados incertos, porque a rede é cheia de besteiras. "Às vezes, a pessoa não tem condições de interpretar o mostrado. Vira paranóia e é um perigo partir para o autodiagnóstico e a automedicação."

Lopes mesmo costuma indicar alguns sites sérios aos pacientes e garante que não tem medo do "embate". "Talvez um recém-formado, sem uma bagagem científica sólida, se sinta até afrontado, sendo checado."

"As pessoas procuram mais a internet quando se trata de doenças mais graves, incuráveis", afirma o chefe do Setor de Ginecologia Endócrina e Climatério da Unifesp, Mauro Abi Haidar. "Ao entrar no consultório, já checaram tudo na rede. Mas é bom lembrar que nem tudo o que está no computador é dado de 'autoridade máxima'."

As pessoas podem até interpretar de maneira errônea os sites. "Às vezes o paciente lhe pede opinião mais abalizada já com autodiagóstico de internauta, abalado, achando-se à beira da morte." Haidar não aconselha o uso da internet. "Não há site que dê mais tranqüilidade e segurança do que o profissional bem preparado e informado."

Para o administrador de empresas Roberto Dallal, utilizar a rede é "fantástico". "O que só era acessível ao pessoal técnico ficou próximo de todo mundo."

Na doença do pai, ajudou a tranqüilizar. "Com os dados, podia interpretar o que o médico falava e até testar seus conhecimentos." Quando o filho fez cirurgia de amídalas, soube em sites que, em alguns casos, era preciso fisioterapia. "Fui perguntar ao médico. Ele recebeu bem. A medicina é uma fogueira de vaidades e achar que o profissional sabe tudo, é Deus, é coisa do passado."

A empresária Elena Perino também fez das consultas à internet um hábito.

"Você vai ao médico mais segura. Ele até explica com mais detalhes porque percebe que não está lidando com pessoas totalmente ignorantes sobre o tema."

O Estado de S. Paulo 05 de novembro de 2002
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