Menopausa: cresce a procura pela fitoterapia
Tratamento é visto como opção à
reposição hormonal para quem teme os efeitos colaterais
LÍGIA FORMENTI
A polêmica sobre a reposição hormonal para combater os sintomas de
menopausa provocou um efeito colateral inusitado: a corrida de mulheres
para tratamentos considerados naturais, à base de soja, trevo vermelho e
uma planta chamada black cohosh. Em farmácias de manipulação, os pedidos
dessas fórmulas aumenta a cada dia. E a venda de produtos industrializados
nas farmácias, seja em forma de medicamentos, seja em forma de suplemento
alimentar, também cresce de maneira expressiva. As empresas admitem o
fenômeno, mas não divulgam os números desse crescimento.
Médicos assistem ao fenômeno ainda incrédulos. Acostumados a ter do
outro lado da mesa pacientes na maioria das vezes cordatas, precisam,
agora, abusar da argumentação para explicar as razões de uma ou outra
receita. "As mulheres estão mais conscientes, interessadas. Mas muitas
apresentam resistência tão grande a um ou outro tratamento que fica
difícil convencê-las", afirma o professor da Universidade Federal de São
Paulo, Mauro Abi Haidar.
O médico, porém, garante: erra tanto quem descarta de imediato o uso
dos hormônios quanto quem apregoa a eficácia e a segurança total dos
fitoestrógenos. "Cada caso é diferente do outro. Todas devem saber que
qualquer que seja a opção há ganhos e perdas."
Divulgado com alarde no início de julho, o estudo financiado pelos
Institutos Nacionais de Saúde (NIH) com 16 mil mulheres revelou um risco
acrescido para problemas cardiovasculares e câncer de mama. O anúncio
provocou a execração da terapia. A brecha foi logo aproveitada por quem
acreditava nos benefícios dos fitohormônios e na ausência de seus efeitos
colaterais.
Argumentos - Ânimos menos exaltados, médicos fizeram uma
análise mais crítica do estudo do NIH. Argumentam que a pesquisa foi
realizada com mulheres mais velhas, com média idade de 63,2 anos,
naturalmente com risco maior de apresentar problemas cardíacos e câncer.
Além disso, dizem que o esquema proposto no estudo há tempos não é
mais usado em consultório. Atualmente médicos usam doses menores. "Sem
falar na diversidade do produto, que pode ser encontrado tanto em
cápsulas, quanto em adesivos ou gel", diz o presidente da Sociedade
Brasileira do Climatério, César Eduardo Fernandes.
O estudo, garantem, serve apenas de alerta para aumentar o
acompanhamento de algumas mulheres. E também pode fundamentar a
contra-indicação para algumas pacientes: as que já tiveram problemas
cardíacos, câncer de mama ou que têm tendência a apresentar esses
problemas.
"Não há estudos que indiquem nem o risco nem a segurança de outros
esquemas de tratamento com hormônio", afirma Fernandes. Mas o mesmo se
aplica aos fitohormônios. As pesquisas não comprovam a total segurança nem
a plena eficácia desses agentes.
Pelo sim, pelo não, médicos continuam afirmando que reposição hormonal
continua sendo o tratamento de primeira escolha. Os fitohormônios acabam
sendo usados em duas ocasiões: contra-indicações precisas dos remédios
tradicionais e inadaptação da paciente à terapia.
Mas muitas mulheres resistem em adotar essa postura. "Muitas fazem
questão de abandonar o tratamento", diz o cardiologista do Instituto do
Coração, Antônio de Pádua Mansur. O conselho que ele dá: se você usava o
produto apenas para prevenir problemas cardíacos, pode jogar fora o
remédio. O médico, porém, não é tão categórico nos outros casos. "É
preciso avaliar os riscos, os sintomas apresentados pela paciente, a sua
reação às drogas."
A pedagoga Maru Beatriz Ceccato, por exemplo, há três anos
passou a usar hormônios para combater as ondas de calor, sintomas da
menopausa. O problema melhorou, mas vieram inchaço, dores insuportáveis no
seio. "Era eu parar de tomar, os problemas passavam." Cansada dos
problemas, ela passou a usar isoflavona. "Agora, estou no céu."
A substituição, porém, não trouxe os mesmos resultados para a
arquiteta Adriana Eboli. Orientada pelo médico, ela passou a fazer
reposição logo que os níveis de hormônios femininos começaram a baixar.
"Como tenho problemas na coluna, recebi recomendações de tomar cuidado com
osteoporose." As notícias sobre os riscos de câncer, porém, fizeram com
que ela colocasse em dúvida o tratamento. Como o médico recusou-se a
abandonar a terapia, ela procurou outro profissional.
Soja - Adriana passou a tomar um derivado de soja. Com ele,
começou a sentir sintomas da menopausa que nunca teve antes.
"Tenho ondas de calor, acordo no meio da noite, com insônia." Em
dúvida, ela agora aumentou a dose da isoflavona. "Mas não descarto a
possibilidade de voltar, um dia, a fazer a reposição tradicional."
Foi essa a decisão tomada pela contadora Vera Lúcia Bozzo. Depois de
fazer reposição com hormônio em forma de gel durante três anos, ela
decidiu interromper o tratamento. "Ouvia falar muito dos riscos, por isso
resolvi mudar para um tratamento a base de fitoestrógenos." A
substituição, porém, trouxe de volta problemas que há tempos haviam sido
esquecidos: dores de cabeça, calores, insônia e instabilidade emocional.
Quando estava prestes a retornar o tratamento tradiconal, veio a
divulgação dos estudos do NIH. "Tive um incentivo a mais para continuar
tentando", diz.
Mas, semana passada, Vera sucumbiu: "Voltei a tomar o remédio
tradicional. Já li que cada caso é um caso. Por que trocar um tratamento
que dava bons resultados por outro que até agora não trouxe nenhum
benefício?"
Tratamento só deve ser feito na dose
certa
E os benefícios podem ser bem mais
demorados que os do método tradicional
LUCIANA MIRANDA
Indicação e acompanhamento médico são essenciais para usar a
fitoterapia com segurança. A idéia de que se é natural não faz mal não
passa de crença popular equivocada. E para que o tratamento fitoterápico
funcione é preciso que seja feito com a dose certa, o que só um médico
consegue determinar.
Como os medicamentos tradicionais, os fitoterápicos também podem
provocar efeitos colaterais. "Mas esses efeitos são menos agressivos",
ressalta Magrid Teske, presidente da Associação Brasileira da Indústria
Fitoterápica (Abifito).
Os benefícios do tratamento fitoterápico também são mais sutis e
demorados.
No caso de alívio dos sintomas da menopausa, os resultados começam a
ser sentidos depois de dois a três meses de tratamento. Com os
medicamentos tradicionais, são necessários só dez dias. "Cada paciente
precisa de uma dose diferente", explica o médico Décio Luís Alves,
presidente da Comissão de Terapias Não Convencionais da Federação
Brasileira das Sociedades de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo).
"Tratamento com fitoterapia não exclui a necessidade de acompanhamento
médico."
Depois de consultar um médico, o segundo passo para usar bem a
fitoterapia é comprar produtos confiáveis. Magrid admite que o setor conta
com muitas empresas de fundo de quintal. "O consumidor deve olhar a marca,
preferir as empresas maiores e mais antigas." É fundamental escolher
produtos registrados na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa)
- informação impressa no rótulo do produto.
Controvérsias - A substituição da reposição hormonal
tradicional por fitohormônios divide a opinião de especialistas. Uns
admitem o uso de isoflavonas (um tipo de fitohormônio presente na soja)
para mulheres na menopausa, outros não. A Anvisa discutiu o assunto com
especialistas de várias áreas. O órgão concluiu que as isoflavonas têm
apenas duas indicações comprovadas pela ciência: alívio das ondas de calor
da menopausa e auxílio na redução dos níveis de colesterol.
"As isoflavonas não substituem a reposição hormonal tradicional",
afirma Karmian Wagner, técnica da unidade de fitoterápicos da Anvisa.
Propagandas dessa indicação são enganosas, de acordo com a Anvisa.
O Estado de S.Paulo 13 de outubro de 2002
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