Esqueceu? A culpa não é da memória
Há os que esquecem de tudo e os que
têm memória prodigiosa. Tudo questão de concentração
RUTH HELENA BELLINGHINI
Esqueceu de onde largou a chave do carro? Perdeu aquela consulta
médica marcada há meses? Deixou de dar um recado? Pois existe gente que
não se esquece de nada. São os hipermneumônicos. Lembram de todas aquelas
aulas de termodinâmica da escola, dos rostos e nomes de todo mundo que
conheceram, do que comeram no almoço do dia 29 de maio de 1983. Um sujeito
assim, um canadense, desesperado com o excesso de lembranças, anotou em
folhas de papel tudo o que queria esquecer e depois queimou, como se assim
pudesse apagar parte de sua memória. Tudo que conseguiu foi acumular mais
uma.
No outro extremo estão pessoas como a professora de inglês Laura
Pacote, que faz listas com tudo o que precisa fazer durante o dia, é
incapaz de gravar o trajeto que já percorreu de carro mais de 40 vezes,
sai com o telefone sem fio na bolsa em vez do celular e não só se vê em
situações contrangedoras como põe os outros em circunstâncias delicadas.
"Uma vez, fechei minha casa, tranquei o portão e fui ao dentista,
esquecendo que minha mãe estava no jardim, de pijamas, regando as
plantas", conta. A mãe, do alto de seus 60 anos, teve de pular o muro e
tomar um táxi (de pijamas) para ir atrás da filha, no consultório, pegar
as chaves. "É de família", diz Laura. Seu pai tem três celulares e é capaz
de perder os três no mesmo dia. "Minha mãe, uma vez, só percebeu que tinha
algo errado pelo jeito com que as pessoas a olharam no elevador do prédio:
estava de calcinha, sutiã e avental."
Entre o canadense hipermneumônico e Laura e seus pais estamos nós,
gente normal que se esquece de onde deixou as chaves, não se lembra de dar
um recado ou o nome daquele ministro. Não há nada de errado nisso. A
memória é extremamente seletiva, só grava aquilo em que nos concentramos e
que consideramos importante - mesmo sem perceber.
Bombardeio - Mas numa sociedade bombardeada por um volume
enorme de informações, muita gente acha que deveria lembrar de muito mais
coisas do que é possível e até pensa que tem falhas de memória.
Não tem. Fica gravado o que é importante. O resto é deletado pelo
cérebro.
"A imensa maioria da informação que recebemos é inútil, basta ver os
e-mails que chegam ao seu computador todos os dias", diz Ivan Izquierdo,
professor de Neuroquímica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
"Nem é preciso ler antes de deletá-los." Existem vários tipos de memória.
"O cérebro funciona com uma espécie de memória on-line, que permite
lembrar da frase anterior para que a próxima faça sentido", explica o
especialista. Há também a memória de curto prazo. "É como quando anotamos
um telefone numa folha de papel. Durante algum tempo ele fica ali em cima
da mesa, mas se usamos constantemente, ele se fixa na memória", afirma.
Se, ao contrário, ele não for tão necessário, vai parar numa gaveta. Com o
tempo, no fundo da gaveta.
E, num dia de arrumação, pode ir parar no lixo. O cérebro faz a mesma
coisa.
No entanto, para que a memória se fixe a longo prazo - um processo
bioquímico, que envolve síntese de proteínas e leva de 2 a 6 horas - é
fundamental que haja concentração e interesse. "A maioria dos jovens,
principalmente adolescentes, que se queixa de falta de memória, na verdade
tem problemas de concentração", diz o neurologista Paulo Henrique Ferreira
Bertolucci, chefe do setor de Neurologia do Comportamento da Universidade
Federal de São Paulo.
De acordo com ele, ter interesse e estar motivado a reter um dado novo
é fundamental. "Para lidar com esse quadro de saturação de informação, não
adiantam nem remédios nem cursos de memorização", diz. "Um bom começo é
dormir o suficiente, reduzir a velocidade com que a informação é absorvida
e diminuir ou parar de tomar tranqüilizantes."
Começar cedo - O chefe do Departamento de Psiquiatria do
Hospital das Clínicas de São Paulo, Wagner Gattaz, começou a ensinar os
nomes das marcas de automóveis ao filho quando ele tinha pouco mais de 1
ano e a família vivia na Alemanha. "Dei uma miniatura de uma Mercedes e
quando ele aprendeu o nome dei outra, de uma Ferrari", conta.
Quando tinha 2 anos, o menino reconhecia 45 marcas diferentes. Fazê-lo
associar o logotipo à palavra que designava a marca também foi fácil e em
pouco tempo o garoto estava alfabetizado. "Meu filho tem excelente memória
até hoje", garante.
O cérebro do nascimento à adolescência destrói uma quantidade enorme
de neurônios. E faz isso para concentrar habilidades. Ratos em que esse
processo foi suprimido acabam com um monte de neurônios que nada fazem e
um cérebro que não funciona. Ao mesmo tempo, os neurônios que restam vão
criando mais e mais sinapses, ligações complexas que produzem uma rede e
retêm e associam informações.
É por isso que é importantíssimo estimular as crianças e adolescentes,
já que nessa fase são criadas as conexões que vão processar e armazenar
informações. "Isso vale também para as conexões motoras. Você não vê um
virtuose de violino que começou a aprender música aos 20 anos; eles
geralmente iniciam os estudos aos 4", diz Gattaz.
Cobranças exageradas de desempenho da memória só causam angústia e
preocupação. "Podemos processar informações fora do organismo. É para isso
que servem as bibliotecas e o computador", diz Izquierdo, que também
escreve contos. "As pessoas vivem mais hoje do que há 50 anos e não
precisam correr tanto. Elas têm de aprender a filtrar a informação e
arranjar mais tempo para viver e amar."
O Estado de S. Paulo 05 de maio de 2002
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