Quando a vida fica complicada, não lembrar é um problema
Antes, era natural, coisa da idade. Hoje, a perda de memória pode estar ligada a uma doença

Há 20 ou 30 anos, ninguém estranhava quando um idoso se esquecia de alguma coisa - era algo considerado natural, coisa da idade. Hoje, porém, a perda de memória passou a ser associada a doenças, principalmente o mal de Alzheimer. Por isso, aumentaram também as preocupações. De acordo com os especialistas, porém, esses esquecimentos do dia-a-dia não merecem maior atenção, simplesmente acontecem. "Você esquece os óculos, mas encontra mais tarde e, geralmente, você já fazia isso 20 anos atrás", exemplifica Wagner Gattaz. O quadro passa a ser motivo de preocupação quando esses esquecimentos complicam a vida, os negócios, dificultam uma conversa porque se perdem palavras e conceitos fundamentais.

"Nem sempre esquecer é um problema da memória", afirma o especialista.

Pessoas com depressão, por exemplo, perdem a concentração porque estão às voltas com seus medos e culpas e não conseguem registrar a informação. "Se o seu disquete não grava o arquivo, não há como acessá-lo mais tarde", compara. Da mesma forma, ninguém consegue ler um livro quando está com enxaqueca ou dor de dente. A concentração combina processos físicos e biológicos - impossível prestar atenção num texto jurídico depois de passar duas noites sem dormir ou com uma monumental ressaca.

A memória, nas palavras dos neurologistas, é o resultado de modificações bioquímicas e estrurais das sinapses - as ligações entre neurônios. É um processo absurdamente complexo que cria redes para acumular, associar e processar informações. "Cada célula nervosa envolvida nessa rede recebe entre 10 mil e 100 mil terminações de outras células e emite outras tantas.

Faça as contas: temos cerca de 200 milhões dessas células", diz Ivan Isquierdo.

Essa rede fica mais fortalecida quanto mais é usada. "É como um curso d'água, como um rio. Quanto mais água passa por ali, mais se aprofunda a calha do rio. Ou seja, quanto mais uma informação é repetida, mais ela se fixa", explica Paulo Henrique Ferreira Bertolucci. Ou seja, quanto mais a memória é acionada, melhor.

A prova disso está nos estudos epidemiológicos mostrando que pacientes de Alzheimer têm nível de escolaridade mais baixo que pacientes da mesma idade que não sofrem da doença. "O treinamento feito para aumentar seu rendimento intelectual foi feito lá atrás, na infância e adolescência, foi reforçado na idade adulta e vai se refletir muito mais tarde, aos 60, aos 70 anos, conferindo uma certa proteção para essas pessoas", diz Gattaz. (R.H.B.)


O Estado de S. Paulo 05 de maio de 2002
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