Solução de água não-clorada, glicerina e álcool 70% pode ser preparada em casa
TATIANA FÁVARO
O princípio da homeopatia aplicado à agricultura tem se mostrado uma
forma eficiente e positiva de controle biológico de formigas cortadeiras.
O professor Francisco Luiz Araújo Câmara, da Faculdade de Ciências
Agronômicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp-Botucatu), realizou
testes com uma solução homeopática preparada com álcool 70%, glicerina,
água e insetos macerados que, diluída, pode ser pulverizada em jardins e
lavouras.
Pesquisador garante que preparado, testado inicialmente em formigas, também pode ser usado com lagartas
Segundo Câmara, a idéia preconizada pela homeopatia, de que o
semelhante cura o semelhante (homeo = igual, patia = doença), foi usada
nesse estudo, iniciado na Guiana em parceria com o Ministério de Pesca,
Agricultura e Pecuária daquele país. O projeto agroecológico tinha o
objetivo de diminuir o impacto ambiental da atividade agropecuária. "A
idéia é equilibrar o ecossistema", explica o professor, também diretor do
Instituto Biodinâmico, associação de certificação de produtos orgânicos.
"Não podemos chamar esses organismos de pragas. Quando uma saúva começa a
cortar mais plantas do que deve, significa um aviso: o ecossistema está
desequilibrado." O processo é comparado ao corpo humano: "As doenças
também são um sinal de desequilíbrio."
Como fazer - O preparado utilizado por Câmara já pode ser usado
por agricultores. Em um recipiente não-metálico são maceradas dez formigas
em parte iguais de 2 mililitros (ou 60 gotas) de água não-clorada,
glicerina e álcool 70%, comprado em farmácia de manipulação.
Depois de repouso de 48 horas, o próximo passo é a diluição da
solução. Três gotas (0,1 mililitro) são diluídas em 10 mililitros (300
gotas) de álcool 70% e dinamizadas (agitadas) cem vezes, como se faz para
dinamizar os medicamentos homeopáticos tomados por seres humanos. Está
pronta a CH1, Centesimal Homeopática 1, isto é, a primeira diluição de uma
parte em cem.
Ela deve ser feita num vidro âmbar (de cor escura) e guardada em um
armário, longe de aparelhos eletroeletrônicos. "O vidro âmbar impede a
entrada de luz ultravioleta e o armário de madeira isola a radiação."
Ainda não será a CH1 a responsável pelo controle biológico das
chamadas pragas. Na homeopatia, quanto mais diluída uma solução, mais
efetivo seu resultado. As mais baixas diluições são indicadas para
'doenças' crônicas e as mais altas, para casos agudos. Portanto, três
gotas de CH1 serão colocadas em outros 10 mililitros (60 gotas) de álcool
70% e dinamizadas cem vezes. O processo será repetido em série, a partir
de cada solução adquirida, até que se chegue, pelo menos, à 12.ª diluição
(CH12).
O nosódio (termo técnico usado para designar o medicamento feito a
partir do próprio organismo, para combatê-lo) será pulverizado duas vezes
ao dia, durante cinco dias consecutivos, nas plantas atacadas, no caminho
das formigas e no olheiro (aquele buraquinho no topo do formigueiro).
Câmara avisa que a 11.ª diluição deve ser guardada em local protegido,
pois a CH12 deve ser feita no dia em que vai ser aplicada. "Não se pode
usar a mesma solução os cinco dias, pois ela fica velha. É preciso fazer,
a partir da CH11, uma nova diluição e dinamização a cada dia", afirma.
"Podemos usar até a CH30, dependendo da infestação."
Outras pragas - O preparado também pode ser feito para o
controle de lagartas, carrapatos, moscas-dos-chifres, bernes, pulgões,
além de outras espécies de formigas, sempre usando os próprios organismos
na solução que será empregada, garante Câmara. "Para lagartas, organismos
maiores, não é necessário colocar dez unidades. Três são suficientes. No
caso dos pulgões, que são menores, 20 a 30 são o bastante."
Grande parte dos organismos morre pelo efeito homeopático da solução -
ainda não é possível estabelecer uma porcentagem, diz o pesquisador. Outra
parte, passa a viver em equilíbrio novamente. "O tempo de duração do
efeito do nosódio depende do quanto o ecossistema estava em desequilíbrio.
Se naquele local foi usado muito adubo químico, muito veneno, se há muita
poluição, certamente os organismos voltarão em menor tempo." Nesse caso, a
solução - barata, eficiente, de fácil manuseio e inócua, segundo o
pesquisador - deverá ser aplicada novamente. Para assegurar o equilíbrio
do ecossistema, lembra Câmara, deve-se obedecer alguns princípios
agroecológicos:
biodiversidade, rotação de cultivos, matéria orgânica, manejo cultural
das plantas, época de plantio adequada, entre outros.