Doenças raras, um pequeno mundo à parte
Contra o desinteresse de laboratórios e governos a dedicação dos pais, médicos e pesquisadores
RUTH HELENA BELLINGHINI

Cristina Rocha de Oliveira só se deu conta da gravidade da doença da filha Priscila, hoje com 16 anos, no meio da gravidez da segunda, Patrícia, que tem 12. As duas, mais o irmão, Paulo, de 5 anos, sofrem da doença de Gaucher, um problema hereditário raro. Márcio e Daniela Cipriano aguardam com ansiedade a liberação de um novo medicamento que pode ajudar seu filho Felipe, de 2 anos e meio, que sofre de síndrome de Hurler, que causa deformidades ósseas, deterioração mental progressiva e leva à morte por volta dos 8, 10 anos de idade.

Doenças raras não costumam atrair o interesse dos grandes laboratórios - afinal, é um remédio que vai exigir pesquisa e desenvolvimento de tecnologia, investimento pesado para um mercado restrito, que vai ter de pagar caro por ele. Além disso, para os governos, vale mais a pena investir pesado na pesquisa de doenças epidemiologicamente importantes, como câncer, aids, hipertensão, diabetes e por aí afora.

O acaso, porém, se encarrega de direcionar este ou aquele pesquisador para o mundo das doenças raras. E as novas tecnologias, de tornar lucrativas até mesmo as drogas para essas doenças. Nos anos 90, o remédio que trata a doença de Gaucher era feito a partir de placentas humanas: milhares eram necessárias para tratar um único paciente por ano. Hoje, a enzima de que Priscila, Patrícia e Paulo precisam é produzida nas células de ovários de hamsters chinesas.

Robert Desnick, diretor do Departamento de Genética Humana da Mount Sinai School of Medicine, de Nova York, envolveu-se com a doença de Fabry por acaso, há 30 anos. "Interessei-me por doenças genéticas quando o diagnóstico era difícil e não se podia fazer nada pelos doentes. Talvez devesse ter me tornado cirurgião, porque eles cortam fora o problema", brinca. Desnick precisava de um tema para um trabalho de conclusão de curso e que acabou sendo a doença de Fabry, só porque dois pacientes tinham aparecido no hospital. Os doentes de Fabry não produzem uma enzima, que deveria quebrar um tipo de gordura, que acaba se acumulando nas células. Os estudos de Desnick levaram ao desenvolvimento de um remédio para a doença, que está sendo usado no Brasil.

"Quando minha pesquisa ficou pronta, o Food and Drug Administration me levou às grandes indústrias, mas nenhuma quis produzir o medicamento", conta. Foi uma empresa nova, de Cambridge, Massachusetts, que se interessou pela descoberta. A Genzyme acabou se especializando no desenvolvimento de drogas para doenças raras. Com muito lucro.

Progresso lento - Para quem faz pesquisa, porém, o desenvolvimento de um remédio, a descoberta da cura, é apenas um dos vários dividendos de tanto estudo. O que se aprende ao longo desse caminho muitas vezes é tão ou mais relevante que o remédio propriamente dito. E, a despeito de tanta tecnologia, tudo demora muito para quem está do outro lado do balcão esperando por uma nova droga.

"Por que a gente opta pelo sofrimento e não pelo final feliz?", pergunta a geneticista Mayana Zatz, da Universidade de São Paulo. Seu trabalho a faz acompanhar a vida de lindos bebês, que lá pelos seus 6 ou 7 anos começam a ter problemas musculares e aos 10 estão presos a cadeiras de rodas com distrofia de Duchenne e outras.

Seu interesse também surgiu por acaso, quando era estudante e acompanhava o trabalho de aconselhamento. "Um dia apareceu uma moça dizendo que iria se casar e pretendia ter filhos, mas queria saber se eles corriam o risco de ter Duchenne, porque sua irmã tinha três crianças afetadas", conta. "Doenças raras nos ensinam muito sobre os genes e seu funcionamento. Antes do genoma, era isso que se fazia para estudar os genes." E ainda se faz.

Divisor de águas - Foi a alta incidência entre crianças do Paraná de uma doença rara que chamou a atenção de Raul Ribeiro, do St. Jude Children's Hospital, de Memphis, no Tennessee. Ribeiro trabalha com câncer de supra-renal hereditário e integra a equipe que publicou em novembro, na revista Nature Structural Biology, um estudo mostrando que a origem do problema estava numa instabilidade em um gene chamado p53 e que aparece alterado em mais da metade dos tipos de câncer. O trabalho foi qualificado de "divisor de águas", aqueles que abrem caminho para novas linhas de pesquisa. "Doenças raras podem dar novas pistas para entender problemas mais comuns. O fato de essa doença estar associada a um defeito no p53 permite uma série de investigações básicas no nível celular para descobrir como mutações nesse gene produzem câncer", explica. O Hospital de Clínicas de Curitiba tem um programa de diagnóstico precoce e tratamento da doença.

A cada ano, nascem no Brasil cerca de 150 bebês com doença renal policística autossômica e metade morre logo após o parto. Os demais vão ter problemas renais graves, terão de fazer diálise e esperar por um transplante antes dos 10 anos. Elas nascem com um defeito no gene PKHD1, identificado e descrito no mês passado pelo brasileiro Luiz Fernando Onuchic, da Faculdade de Medicina da USP, e outros 17 pesquisadores. Onuchic encantou-se primeiro com a nefrologia e, depois, pela biologia molecular. "Esse é o caminho que a ciência médica vai seguir", afirma. "Isso indica que esse gene também deve estar envolvido no processo de especialização de tecidos", diz o pesquisador. Esse conhecimento, porém, não significa que um tratamento está próximo. Há muito trabalho pela frente.

Trabalho como o de Michael Brown e Joseph Goldstein, da Universidade do TExas, que nos anos 70 pesquisavam uma doença chamada hipercolesterolemia familial, em que até crianças de 6 anos enfartavam de tão alto seu colesterol. A doença ensinou a eles como as células transportam colesterol.

A pesquisa abriu caminho para uma nova droga, a lovastatina. E deu a eles o Nobel de 1985.

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O Estado de S. Paulo 02 de Junho de 2002
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