Síndrome Duracell!

FDA analisa liberação de um "rebite" para os que crêem que dormir virou supérfluo.
Por Tatiana Pronin. Foto Rafel Jacinto, De São Paulo

Só de pensar em perder um terço da vida de olhos fechados, sonhando com cenas bizarras, enquanto há tanto por fazer, dá desespero. Claro que dormir é ótimo. A questão é: não há espaço para essa necessidade vital na agenda de bytes e bits dos palms e afins. Virou artigo de luxo e nem aos abastados é permitido largar-se na cama sem culpa. Está na hora dos cientistas inventarem algo mágico para resolver isso.

De certa forma eles já inventaram. A droga modafinil, que parece tão eficaz em manter a mente alerta quanto a anfetamina - mas sem seus efeitos colaterais e a dependência que ela provoca -, é vendida nos EUA desde 1998 com o nome de Provigil e usada para tratar a narcolepsia (doença que leva as pessoas a desmaiarem de sono a qualquer hora do dia). Agora, o laboratório Cephalon, seu fabricante, pretende indicá-lo a pacientes com sonolência associada a outras patologias, como apnéia, depressão e esclerose múltipla, após liberação do FDA, que deve acontecer este ano.

O anúncio deixa uma pergunta no ar: se uma pessoa que sofre de depressão corre o risco de sofrer um acidente por causa da má qualidade do sono, pessoas que trabalham até altas horas também não? "Se o indivíduo tem problemas para dormir à noite, é preciso tratar a causa em vez de aplacar sua sonolência diurna", rebate o neurologista Luciano Ribeiro Pinto Jr., do Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Aplicações mais amplas da substância, que age sobre os neurotransmissores responsáveis pela vigília, têm sido estudadas há algum tempo. Em 2000, pilotos de helicóptero do exército americano ficaram acordados e bem dispostos durante 40 horas num simulador de vôo por causa dele. Há médicos pesquisando também seu benefício em pessoas que trabalham de madrugada.

Na Europa, o modafinil é comercializado como Modiodal e sua prescrição não é tão restrita. Tanto que tropas francesas usaram a droga para manter-se ativas durante a Guerra do Golfo, como informa o médico Robert Mason, pesquisador da britânica International Antiaging Systems. Apesar de defender o uso, ele recomenda critério. "Dormir é importante para o sistema regenerativo do cérebro; é o que nos dá energia para viver."

Energia talvez seja pouco. Uma pesquisa divulgada este ano pela National Sleep Foundation, autoridade máxima em sono nos EUA, mostra que "somos o que dormimos". A entidade concluiu que os grandes males da vida moderna, incluindo estresse, agressividade, pessimismo e até obesidade (quem dorme menos come mais), estão associados à "epidemia de privação do sono". Cerca de 63% dos americanos não dormem as oito horas recomendadas e metade diz gastar menos tempo com o travesseiro do que há cinco anos.

No Brasil, apesar de as clínicas especializadas em distúrbios do sono estarem se popularizando, há poucas pesquisas. Mas sabe-se que ao menos 30% da população têm algum distúrbio, principalmente insônia.

O neurologista Martin Portner, criador da newsletter "Deu Háquer na Cabeça", ainda cita outra vantagem de se dormir bem: é a melhor vitamina para a criatividade. "Criamos a partir de algo escondido na memória", explica. E é durante o sono REM (Rapid Eye Movement), quando sonhamos, que as células processam informações e sentimentos que vivenciamos. "Quem dorme pouco costuma ser emocionalmente imaturo", sugere.

Deu medo? Então lembre-se de que respeitar essa necessidade fisiológica exige autoconhecimento. O neurocientista Renato Sabbatini, da Unicamp, diz que os médicos falam em oito horas porque é o que funciona para a maioria. Mas há pessoas que se satisfazem com menos, como o boêmio Francisco José Garcia, CFO da Getronics, que dorme quatro horas por noite e estica as noitadas sem problemas, como tem feito para assistir à Copa do Mundo. Mas concorda com a teoria de que dormir é bom para a criatividade. "Fiz toda a minha tese de MBA acordando com 'insights' no meio da noite." Já para a gerente de produtos Sheila Andrade, do grupo LVMH, é uma pena o dia não ter 36 horas. Ela acorda às 7h e não dorme antes da 1h, pois aproveita o tempo livre para ler. "Mas acordo mal-humorada e sinto o cansaço se acumulando", confessa.

Muitos devem se perguntar porque algumas pessoas conseguem se satisfazer com pouco sono e outras não. "É biológico. Até em animais do mesmo grupo há essa variação", responde o psiquiatra Alberto Remesar-Lopez, também da Unifesp. E não adianta lutar contra o relógio interno. "Essa história de que é possível se educar para dormir pouco é bobagem", garante ele, que está concluindo tese sobre a Síndrome do Atraso na Fase de Sono, mal que afeta quem não dorme antes das 2h.

Em relação ao uso do Provigil como forma de melhorar a vida de quem não se adapta à agenda oficial, ele não é contra. Mas acredita que não resolva o problema. "Ao contrário do que achava Thomas Edison, dormir não é só uma questão de falta de luz. Há outros aspectos, como a queda de temperatura."

Até o coração fica doente se não dormimos o bastante. "A privação de sono crônica é um estresse ao organismo, portanto um risco", avalia o cardiologista Daphinis dos Santos, da BH Check-Up. "Os órgãos precisam se recuperar das barbaridades que fazemos com eles durante o dia", declara o preparador físico Nuno Cobra. Ele, que treinou empresários e atletas de elite, manda (isso mesmo) os clientes dormirem cedo e não usar despertador.

"O próprio Ayrton Senna - seu pupilo - foi vendo o quanto isso melhorava sua performance e passou a se deitar às 21h", relata. "Alguns dizem até que os dias ficam mais bonitos depois que passaram a dormir bem", complementa, comprovando a teoria de Allan Vila Espejo, proprietário dos restaurantes Almari e Vila Conti, em São Paulo. Ele não abre mão de dez horas de sono e considera isso essencial para o seu bom humor. "Se eu não dormisse tudo isso, certamente seria um chato", brinca. Como se vê, aproveitar o aconchego de uma cama macia não se trata de hedonismo, mas de investimento pessoal.


Valor Econômico/Estampa Junho de 2002
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