Fogueira das Vaidades

"Baby face" e tônus de Apolo com dose extra de testosterona
Tatiana Pronin, De São Paulo
Foto: Pio Figueroa/Valor
A médica Anna Maria Martits, que defende a reposição hormonal masculina

Por tradição, o homem sempre foi mais negligente em relação à saúde do que a mulher. Deixa para procurar o médico apenas quando já está doente, ao passo que sua companheira, em geral, sabe a importância da prevenção. Não à toa, elas vivem de seis a oito anos mais do que eles, segundo as estatísticas.

Mas esse quadro parece estar mudando, seja pela necessidade de manter-se ativo por mais tempo ou pela insistência de esposas ou namoradas. Para conservar o pique, os homens estão apelando até para a reposição hormonal, terapia que até pouco tempo era considerada exclusiva a mulheres depois da menopausa. Essa foi a tônica do III Congresso Mundial sobre o Envelhecimento Masculino, que se realizou no início deste mês em Berlim, Alemanha.

Infelizmente, a tal negligência também permeou o meio científico e os estudos na área estão pelo menos 30 anos atrasados em relação ao conhecimento sobre o sexo feminino. Mas já mostram o quanto o déficit hormonal prejudica o homem após os 40 anos, como afirma a endocrinologista Anna Maria Martits, coordenadora da área de saúde masculina da Academia Brasileira de Medicina Antienvelhecimento, que participou do evento.

"Nem 'menopausa masculina', nem 'andropausa'", esclarece ela. O termo que faz jus ao fenômeno que atinge os homens é "Deficiência Androgênica Progressiva do Envelhecimento Masculino". "O que há é uma diminuição gradativa na produção de testosterona", explica. Reparando o desnível do hormônio, ela garante que é possível melhorar a saúde e a qualidade de vida dos homens, mantendo a libido, a disposição, a firmeza dos músculos e a pele jovem por mais tempo.

Em entrevista ao Valor, Anna Maria conta ainda o que está por vir nessa área. Estuda-se até receitar doses de estrógeno - hormônio predominantemente feminino - aos homens, assim como a testosterona tem sido usada em algumas terapias de reposição feminina. Com um ajuste aqui e outro ali, os médicos tentam adaptar o corpo humano ao bem-vindo aumento da expectativa de vida.

Valor: Está correto dizer que eles também entram na menopausa?

Anna Maria Martits: No caso dos homens não ocorre uma interrupção, mas uma diminuição gradativa na produção do hormônio testosterona, que chamamos de "Deficiência Androgênica Progressiva do Envelhecimento Masculino". Essa redução costuma começar aos 40 anos e varia conforme o indivíduo. A alteração diminui a libido e a capacidade intelectual. Também gera fadiga e acúmulo de gordura na região do abdome, além de afetar o sono, a pele, a densidade óssea, os músculos e a quantidade de pêlos do corpo.

Valor: Os sintomas bastam para que um médico indique a reposição hormonal?

Anna: Não, já que esses sintomas podem ter causas diversas. Antes de receitar o hormônio é preciso cumprir um protocolo de diagnóstico que inclui avaliação clínica, aplicação de um questionário elaborado pela ISSAM (Internacional Society of the Study of the Aging Male) e, finalmente, exames laboratoriais. A dosagem de testosterona deve ser testada mais de uma vez, pois o estresse também pode provocar alterações hormonais.

Valor: Quais os riscos e as contra-indicações da terapia de reposição de testosterona?

Anna: Havia a suspeita de que a reposição prejudicaria a saúde cardiovascular, mas hoje sabe-se que é o contrário. Também apontou-se a possibilidade de provocar câncer ou hiperplasia benigna de próstata (aumento da glândula). Estudos mostram que a terapia pode agravar essas doenças, se elas já existirem. Há outros riscos, como retenção de líquido, apnéia do sono, ginecomastia e aumento dos glóbulos vermelhos, mas são raros e podem ser eliminados reduzindo-se a dose.

Valor: Como o hormônio é consumido?

Anna: A maioria dos pacientes recebe injeções em períodos que variam de uma a três semanas, dependendo do quadro. Hoje em dia, a testosterona também está disponível em adesivos para a pele (os "patches"), géis ou implantes. Os laboratórios estão começando a se interessar pelo assunto e desenvolvendo hormônios de ação mais seletiva, que não afetariam a próstata. Ou com efeito mais prolongado e homogêneo, como as microcápsulas injetáveis e o bucilato de testosterona.

Valor: A reposição de testosterona pode beneficiar as mulheres?

Anna: Isso ainda é pouco difundido. O hormônio masculino também melhora a libido das mulheres, mas ainda há divergências sobre o assunto. Há estudos mostrando que a reposição de outros hormônios, como o do crescimento, podem retardar o envelhecimento, e até indícios de que a reposição de estrógeno ajude a conservar a densidade óssea e a memória dos homens. Mas ainda há muito para ser pesquisado.

Valor Econômico 25 de fevereiro de 2002
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